Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, BUTANTA, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese, French, Livros, Viagens, cinema



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Olhar da Semana


AS MÁQUINAS NÃO MENTEM JAMAIS

 

 

 

NÃO EXISTE MAIOR IRRITAÇÃO PARA UM USUÁRIO DO QUE DEPENDER DE UM TÉCNICO QUANDO O COMPUTADOR DÁ ALGUM DEFEITO.

 

A CULPA NÃO É DO POBRE TÉCNICO, QUE DÁ O SEU MELHOR PARA RESOLVER O PROBLEMA E QUE AINDA, EM ALGUNS CASOS, TENTA EXPLICAR AO LEIGO O SEU DIAGNÓSTICO DO PROBLEMA, BEM COMO A CAUSA PROVÁVEL QUE O GEROU.

 

TAMBÉM NÃO É DO POBRE USUÁRIO, DUPLAMENTE IRRITADO POR TER DE INTERROMPER UMA TAREFA IMPORTANTE (O COMPUTADOR SEMPRE PIFA QUANDO A TAREFA É IMPORTANTE) E, POR CIMA, SER TRATADO COMO DÉBIL MENTAL PELO COMPETENTE DO TÉCNICO, QUE PARECE TRIPUDIAR DA SUA DESGRAÇA RESOLVENDO AS COISAS BEM LENTAMENTE.

 

BEM, A CULPA NÃO É DE NENHUM DOS TRÊS, POIS A MÁQUINA PODERÁ DAR O PIOR DEFEITO DO MUNDO, CONHECIDO OU DESCONHECIDO, QUE AINDA ASSIM JAMAIS SERÁ CULPADA DE NADA, MESMO QUE O USUÁRIO TENHA O IMPULSO INCONTRÁVEL DE LHE DAR UM SOCO, UM PONTAPÉ OU ATIRAR O COMPUTADOR PELA JANELA.

 

NÃO, O SISTEMA NUNCA É O CULPADO – DIZ GRAVEMENTE O TÉCNICO – MAS EM NOVENTA E NOVE POR CENTO DOS CASOS A CULPA É DO USUÁRIO.

 

MINHA? POR QUÊ? SE EU FIZ TUDO CERTO E, NO ENTANTO, NÃO FUNCIONOU...

 

NÃO, NÃO – DIZ GRAVEMENTE O TÉCNICO – SE TIVESSE FEITO TUDO CERTO, TERIA FUNCIONADO SEM SOMBRA DE DÚVIDA, PORQUE O SISTEMA... COM CERTEZA O SENHOR FEZ ALGUMA COISA ERRADA PARA DAR O DEFEITO.

 

O USUÁRIO, DESOLADO, ATRASADO EM SEU TRABALHO, JÁ PERDIDO O FIO DA MEADA QUE ELE VINHA DESENROLANDO COM O AUXÍLIO DO COMPUTADOR, NÃO SENTE O MENOR INTERESSE EM SABER POR QUE O RAIO DO PROBLEMA ACONTECEU, NEM COMO FUNCIONA O TAL SISTEMA.

 

JÁ O TÉCNICO, QUE JUSTAMENTE NAQUELA MISSÃO DE SALVAMENTO ESTÁ DESENROLANDO A MEADA DOS SEUS CONHECIMENTOS, ACOMPANHA COM O MÁXIMO INTERESSE AQUELAS MENSAGENS ENIGMÁTICAS QUE A MÁQUINA EMITE, CHEIA DE SINAIZINHOS CABALÍSTICOS QUE PARECEM TER SIDO CRIADOS PARA ATERRORIZAR AINDA MAIS O HEREGE DO USUÁRIO...  

 

IMPOSSÍVEL EVITAR A ELEVAÇÃO DA TEMPERATURA AMBIENTE, ENQUANTO UM MERGULHA NO VIRTUOSO DESEMPENHO DO SEU TRABALHO E O OUTRO, ROENDO AS UNHAS, AO LADO, SEM SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO, REFÉM DOS SINAIS CABALÍSTICOS DO FIM DOS TEMPOS, ESTÁ IMPEDIDO DE CONTINUAR O SEU.

 

ESTE SIMPLES CONFLITO DE PONTOS DE VISTA PODERÁ LEVAR OS DOIS ÀS VIAS DE FATO, COM RISCO DE PERDA DE UM OU DOS DOIS EMPREGOS, CASO NÃO SEJA OBSERVADO ESTE SIMPLES PRECEITO:

 

LEMBRE-SE, USUÁRIO: O TÉCNICO, SE FOR COMPETENTE, DEVE AMAR O SEU TRABALHO E SENTE-SE UM VERDADEIRO SHERLOCK HOLMES SEGUINDO AS PISTAS DO SEU COMPUTADOR DEFEITUOSO; PARA ELE, O QUE QUER QUE VOCÊ VINHA FAZENDO NELE É SECUNDÁRIO;

 

E LEMBRE-SE, TÉCNICO: O USUÁRIO DO COMPUTADOR NÃO TEM A MENOR IDEIA DO QUE ESSA COISA É, NÃO TEM O MENOR INTERESSE EM SABER COMO ELA FUNCIONA E POR QUE FUNCIONA; TUDO O QUE ELE FAZ É USAR A MÁQUINA COMO UMA EXTENSÃO DE SUAS MÃOS, SEUS OLHOS E SUA MENTE; PARA ELE A MÁQUINA JAMAIS DEVERIA FALHAR, COMO SEUS PRÓPRIOS OLHOS E MÃOS NUNCA FALHAM.

 

ORA, PONTOS DE VISTA INCONCILIÁVEIS TÊM APENAS UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL: QUE TÉCNICO E USUÁRIO LARGUEM O SISTEMA POR UM TEMPO EMITINDO SUAS MENSAGENS DO OUTRO MUNDO E VÃO JUNTOS, ABRAÇADOS, TOMAR UMA CERVEJA NA ESQUINA. MAS, POR FAVOR, FALEM DE FUTEBOL E DE CINEMA – NÃO FALEM DE COMPUTADOR!

 

 MarciaK

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 18h36
[] [envie esta mensagem] []



 

 

A Vida é Drama

 

Existem dois tipos de pessoas: as que pensam sobre a vida e as que apenas vivem. Estas últimas são felizes ou infelizes naturalmente e nada há a dizer sobre elas. Quanto às que pensam sobre a vida, dividem-se em dois tipos: as que veem a vida como comédia e as que a veem como drama. Na comédia os episódios vão se sucedendo sem muito nexo a não ser o das coincidências desastrosas que, ao juntar numa mesma situação elementos diferentes, expõem suas contradições e sua falta de nexo. Para os que veem a vida como comédia não há muito a compreender nela, apenas a gozar, evitando os dissabores. Mas para os que enxergam o drama na vida, como num romance, num teatro ou num filme - ah, para esses está posta a mesa dos dilemas infinitos, um material para ser estudado até o fim de seus dias.

A vida é drama. Qual é o roteiro? Pode ser mais conciso e objetivo para uns, ou confuso e mal alinhavado para outros, a maioria. Quase todos os nossos dramas, no entanto, padecem da falta de um diretor, aquele elemento interno que “sabe das coisas”. Na falta de um, vários diretores assumem a peça em diferentes fases da nossa vida, e vão passando a bola uns para os outros, de modo que nenhum deles se compromete demasiado. O novo eleito herda os rombos do caixa do precedente, exatamente como na política, e, com as energias da companhia desfalcadas, tem de se virar para cumprir suas próprias metas. Na infância, a direção está com nossos pais ou adultos que os substituíram; nossa vida segue o roteiro que eles nos impõem. Mas este deverá ceder o posto, assim que atingirmos a puberdade, ao novo diretor chamado sexo. Daí em diante é ele quem comanda nossas vidas. Mas só até a companhia mudar de rumo e ele cair em desgraça, passando a ser um mero assessor do novo diretor. E assim, cada drama individual vai tendo seus próprios diretores.

Considerando a história da nossa vida como um filme, não convém nos embrenharmos nos sentidos filosóficos da “escolha do diretor” de nossos dramas; que cada um faça as escolhas que quiser: um pode ter tido a religião por diretor, outro alguma emoção dominante, como a inveja ou a vingança; outro, ainda, um desejo inextinguível de realizar algo, e assim por diante. Lembremo-nos apenas que o diretor esteve lá o tempo todo e que fez o possível para levar nosso drama a bom termo. Ele teve de lidar com um roteiro recebido não se sabe de quem – uma garatuja que ele mal conseguia ler; com os atores – personagens protagonistas, secundários e figurantes do nosso drama; com a locação dos espaços onde as cenas da nossa vida tinham de acontecer e que nem sempre eram adequadas; etc, etc.

A despeito da falta de uma direção competente, o drama da nossa vida se desenrola. Nós nascemos e... vamos que vamos! Não há tempo para planejar muito. Naturalmente nos vemos como herói ou heroína da nossa história. Tudo o que nos acontece é elemento essencial da trama; o que acontece aos outros é apenas detalhe figurativo. Com o tempo, o acúmulo desses detalhes vai se constituindo como nosso meio ambiente, o qual não é menos importante que a trama, visto que nenhum homem é uma ilha e tudo o que acontece aos outros o afeta. Daí a importância de se conhecer a época e o tipo de sociedade em que se desenrola a nossa história.

Resta falar um pouco sobre o caráter da trama. Todo bom roteiro é, em última análise, a epopeia em torno de um conflito essencial, mesmo que este seja tão banal quanto, por exemplo, o desejo de ser rico e poderoso para dominar o mundo. Determinado o conflito, todos os personagens da nossa história, tanto os principais como os secundários adquirem um movimento mais ou menos automático que os leva em direção à condensação máxima dos elementos do conflito. Esse movimento alcança uma velocidade cada vez maior à medida que tudo se aproxima de um e se aglutina nesse nó; desfeito o nó de alguma forma, segue depois como movimento mais lento. É importante que o diretor conheça muito bem, portanto, esses elementos iniciais do conflito e as características dos personagens que estão em jogo. Infelizmente em nossa biografia real quase nunca conhecemos nossas motivações íntimas, nem os contornos do conflito que surge sempre que o mundo contraria um desejo nosso, muito menos as características de nossos próprios personagens internos que, às vezes, atuam de maneiras antagônicas entre si, e dos personagens externos, as pessoas com quem nos relacionamos.

Mais não falemos. Apenas que a situação configurada como nó do enredo tem duas possibilidades, seja na vida ou seja no drama: a primeira se dá quando uma situação reúne elementos diversos em um caldo chamado crise – estes elementos, cozinhados lentamente em condições ideais, podem então gerar uma nova substância, a qual participará na geração gradual de novas necessidades que irão, por sua vez, desembocar numa crise futura, e assim sucessivamente, numa série que poderia chamar-se o nosso “desenvolvimento pessoal”. Estas são as crises ideais no drama da vida.

Mas nem sempre as coisas se dão assim. A segunda possibilidade da situação é aquela em que os elementos da mistura, ao serem expostos ao fogo sofrem uma explosão. A ruptura é total. Aqui o diretor vai precisar de um tempo enorme para reorganizar toda a trama - ao explodir o caldo, os elementos foram disparados para longe, nada mais está no seu lugar original. Esses elementos que participaram da história daquela vida vão ficar vagando durante eras como poeira cósmica – a psicanálise diria que como trauma no inconsciente -, até conseguirem se agregar novamente e formar um corpo que tenha significado dentro do filme.

O pior é que os filmes ruins estão cheios desses “elementos fantasmas” que, não sendo conhecidos do público e nem sequer do diretor, ficam ocultos durante as cenas influenciando o desempenho dos atores. Estes não sabem, depois, por que tudo deu errado. Em sua maior parte, nossos dramas estão cheios desses fantasmas. Um grande crítico de cinema chegou a afirmar, em sua obra “Abaixo a Obscuridade na Tela”(*), que nenhum filme, leia-se nenhuma vida, poderá chegar a um termo satisfatório enquanto persistirem esses elementos insurrectos de antigos conflitos da essência.     

 

(*) livro fictício e um tanto maluco como este artigo.

 

 

 

 

 


 MarciaK



Escrito por Marcia K. às 20h32
[] [envie esta mensagem] []



ROSAS DE MÁRMORE

 

 

Resultado de imagem para túmulos desenhos

 

Rosas de Mármore


Sonhos róseos, sonhos áureos

Floresceram em minha vida

Mansamente, sem alarde

Mas desabrocharam tarde.

 

Já não havia mais sol

Nem amor, nem mocidade.

Nasceram frios os meus sonhos,

Pequenas rosas de mármore.



Escrito por Marcia K. às 11h38
[] [envie esta mensagem] []



 

 

 

O GRANDE IRMÃO


 

O GRANDE IRMÃO

Num minuto você sabe tudo, no outro não sabe nada. Hoje está profissional de carreira, cheio de planos e sucesso. Amanhã está na aposentadoria e seus filhos lhe dizem o que fazer. A realidade ainda se traduz nos seus pensamentos, você está velho mas não está morto, acompanha as notícias... Mas, até quando? Um belo dia os neurônios do seu cérebro deixarão de funcionar e...pronto, você virou um bebezinho que não se lembra de nada e precisam dar comida na boca.

Ingrata esta dependência do cérebro! Ingrata esta dependência do corpo material. Mas isso não é tudo. Preste atenção ao modo de vida atual e verá que estamos sofrendo uma mutação. Sim, o ser humano não é o mesmo do tempo de nossos pais e avós, nosso cérebro não é o mesmo. Agora, além de administrar nossos próprios pensamentos e memórias, e aguentar nossas confusões e incapacidades, ainda temos que lidar com o outro cérebro, o grande cérebro coletivo.

Ai daquele que ainda não percebeu isso, que não recorre ao google para saber onde fica tal lugar, como se traduz tal palavra, quais são os sintomas de tal doença, como preparar essa comida, onde assistir a tal filme e etc. etc. etc... Ai daquele que ainda não usa o celular para movimentar a conta do banco e pagar suas contas, para ser guiado no trânsito pela melhor rota, para conversar com os parentes distantes ou mesmo os amigos próximos, mostrando que ainda está vivo – não se esqueçam de mim! Vejam que foto linda estou mandando, vejam que sou uma pessoa interessante. Ai daquele...!

A internet e a mídia estão fazendo para nós o que o nosso cérebro pessoal era obrigado a fazer. Contam para você imediatamente os fatos que estão se dando no país ao qual você nunca terá de ir para conhecer. Interpretam esses fatos, levando em conta muitos outros dados que você nunca será obrigado a ler. Fazem você sofrer pelos eventos que estão afetando pessoas do outro lado do mundo, não lhe dando tempo nem espaço para sofrer completamente pelos eventos do seu próprio bairro e sua rua. Não lhe deixam espaço para você conhecer quem você é.

Essa matéria sempre foi a mais ingrata para o cérebro: saber quem eu sou. Mas agora ficou praticamente impossível. Porque agora eu sou o meu perfil, ou os meus perfis nas diversas mídias sociais – tem aquele perfil da mídia mais profissional, o dos amigos, o da família, aquele para os seus alunos, para os seus eleitores, etc.

Outro dia li um artigo de uma escritora que faz sucesso com publicações eletrônicas. Ela ensinava que para que o público se interesse por seus livros, não pode descuidar do seu perfil na mídia como um todo – precisa manter seus blogs atualizados, com assuntos do momento e informações importantes e originais; precisa ser uma fonte de informação para seus seguidores, para que eles não a deixem de ler. Penso que, com tal preocupação, pouco tempo lhe irá sobrar para concentrar-se em seus livros, buscar conteúdo para eles um pouco mais profundo, abaixo da superfície massificada das conversas. Ou você conversa e conversa e conversa ou... você busca no silêncio algum crescimento pessoal, que depois eventualmente poderá transmitir.

Nesse estado de coisas, nosso pobre cérebro fica realmente num grande impasse. Se não se conectar, ficará isolado, desatualizado, sem ferramentas para interagir no mundo de hoje. Vai experimentar um sentimento de rejeição e de estranheza, sentir-se um marginal, um desadaptado. Por outro lado, se se mantiver conectado, experimentará uma pressão constante de continuar conectado, de acessar novos dados, de participar de mais grupos, de conhecer as novidades, de se tornar hábil nas novas práticas exigidas... Vai experimentar, claro, uma frustração por não conseguir fazer nada disso por muito tempo... Vai sentir-se um molusco num mar de tubarões. E o pior de tudo, vai perder o pouco sentido de “eu” que possuía, no meio dos seus muitos perfis sociais...

Ah, esse Grande Irmão que nos vigia a todos, nos incita a fazer o que ele quer que façamos, a comprar, a ir, a conhecer e a acreditar...! Eu fico cansada dessa conexão exigente e pegajosa... Digo para mim mesma que ninguém manda em mim, mas calo-me e obedeço... Ele conduz os caminhos do meu pensar, do meu sentir, do meu querer. Como todo mundo, sou uma escrava do cérebro coletivo.

Então eu digo: basta! Não quero mais ser escrava, de hoje em diante serei livre para pensar, agir e querer! O telefone celular será usado apenas para fazer e atender chamadas – que raramente faço, pois dá trabalho escutar a pessoa “ao vivo”, é mais fácil interagir com mensagens plastificadas. O computador será usado somente como máquina de escrever e arquivo de textos, embora, é claro, não sei para que vou escrever se não vou publicar. Não tenho mais perfis, quem não me conhece não pode mais ver para crer. Agora tenho todo o tempo do mundo para tentar me conhecer a mim mesma, lembrando Sócrates. E para buscar no silêncio o verdadeiro sentido da Vida...!

Sim, é isso o que farei. Apenas darei uma olhadinha, antes, nos vídeos do YouTube para ver o que os gurus me dizem sobre isso. E uma vista de olhos pelas notícias, para não virar as costas para o que acontece no mundo e, assim, incorrer em pecado de egoísmo. E dar uma verificada no e-mail para o caso de não deixar sem resposta alguém que possa ter me mandado uma mensagem importante. Darei um boa-noite no grupo de família do Whatsaap para não ficarem preocupados com meu silêncio. Mas nada mais farei, a não ser aquela transferência bancária e... Enfim... quando terei o meu silêncio? Será que na morte também é necessário se cadastrar no Além pela internet antecipadamente?

F I M

 

 




Escrito por Marcia K. às 14h06
[] [envie esta mensagem] []



OS GRANDES TEMAS: DE ROMEU E JULIETA À XOXOTA?

 

Para onde iria um escritor que quisesse conhecer seu público? A uma feira literária? Em um evento promovido e patrocinado por muitos selos editoriais ele poderia encontrar todo tipo de público leitor, desde os aficionados e puxa-sacos de celebridades até os simples curiosos passeadores com a família.

Pois a FLIP de Paraty é exatamente essa festa, essa mistura de quermesse do interior com os encontros cult das noites de Vila Madalena. Você encontra de tudo um pouco, espalhado pela arquitetura colonial que, a bem da verdade, de regional não tem mais nada; até as pedras irregulares das ruas são alugadas para quem quiser que seus fregueses passem. No centro cultural assiste a um documentário sobre Foucault; vê uma exposição de cirandeiros da região e outra de fotomontagens com o chamativo título de “Xoxota”. Ao lado, quase dá uma trombada numa estátua de Shakespeare feita de papel-machê, em posição de declamar versos. É porque um arauto vestido a caráter está distribuindo senhas para a palestra “O Mundo é um Palco”, a respeito do famoso escritor inglês, com a participação da – para alguns mais famosa ainda - Fernanda Montenegro.

 Os frequentadores que perambulam à caça das palestras são um espetáculo à parte para quem gosta de ver gente. A maioria são jovens, alguns alardeando irreverência no modo de vestir; outros apenas fora de moda, que é uma marca de quem tem personalidade. Turistas com máquinas fotográficas. Passantes mais velhos, geralmente de preto, e estes você poderia desconfiar que não são só público, mas “alguém” da profissão que está ali por algum motivo mais nobre do que comprar lembrancinhas. De fato, quando uma pessoa mais velha entra num café próximo a algum desses eventos literários, as pessoas olham para ver se não é alguém conhecido. Vai que seja, e não querem perder o autógrafo e a selfie.

No meio das dezenas de lojinhas, restaurantes e cafés, onde houver uma pequena aglomeração na porta provavelmente haverá uma placa anunciando palestra ou lançamento de livro. Dá para espiar da rua, e como são todos grátis, se tiver paciência você pode ficar ouvindo debruçado na janela. Na praça da matriz está a festa para a criançada. Rodas de livros infantis, muitos espalhados no chão para leitura – pouquíssimos leitores mirins – e no quiosque rola uma conversa informal com uma escritora infantojuvenil. Também há muitas barracas de ONGs e Movimentos, pró ecologia, pró caiçaras, etc. Escritores sem patrocínio oferecem seus próprios livros na calçada, com autógrafo incluído no preço. Caricaturistas retratam os passantes em troca de uma simples gorjeta. E as editoras diversas que muito oportunamente montam suas estantes dentro de cafés, com placas oferecendo promoções duvidosas, pois os preços são salgadíssimos. E, claro, há os pintores do casario colonial que no meio da rua mostram seu talento para que, no final, algum turista fique com a obra. E os hippies vendendo bijuterias; os índios vendendo bichos em madeira e coisinhas de palha, contas, conchas, penas; um carrinho de mão que passa vendendo doces caseiros tentadores...

Sim, sim, meu querido Shakespeare, o mundo é um palco e neste momento Paraty é o palco do mundo! Por aqui desfilam culturas diferentes e diferentes interesses também... O que toda essa gente espera da literatura, afinal?  

O escritor, vendo os desenhos e mostras, os títulos dos livros lançados, ouvindo frases de palestrantes aqui e ali, suponho que concluiria que os principais temas que habitam o imaginário popular e suas preocupações nos dias de hoje são: a solidão; o individualismo; o narcisismo; a xoxota e a sexualidade.

Ora, ora! – diria, preocupado em conhecer o público para quem gostaria de escrever -  Interessante...! São estes os temas literários do nosso tempo? Quem procura um livro hoje em dia, uma peça de teatro, um filme, já não se interessa mais pelos grandes temas clássicos – a morte, o destino, a finalidade da existência, o amor e o ódio, o amor, o amor...?

Shakespeare coçaria a cabeça, desanimado. Pensaria em largar definitivamente a profissão e abrir uma gráfica. Enfim, como “escrever or not escrever” para ele era questão de vida ou morte, daria de ombros e continuaria escrevendo sobre o único tema que sempre existiu, mesmo sob risco de não ter mais nenhum leitor. Claro, ele continuaria escrevendo sobre o amor.

 

Marciak

 



Escrito por Marcia K. às 12h29
[] [envie esta mensagem] []



AS COISAS COMO ELAS SÃO

(Crônica engraçadinha)


 

Dois amigos encontram-se no shopping.

- Você por aqui! Não esperava uma coisa dessas!

- Estou comprando umas coisinhas.

- Eu estava indo comer alguma coisa, vamos?

O outro concordou.

- Mas esse restaurante não é lá essas coisas, é bem simples.

- Você sabe que eu não ligo pra essas coisas. Aqui só tem coisa boa.

Sentam-se e olham o cardápio.

- Escolheu alguma coisa?

- Sei lá... Tem tanta coisa! O que você escolher, peça a mesma coisa pra mim.

Fazem o pedido.

- Há quanto tempo, hem? Mas conte alguma coisa!

- Eu? Não tenho grande coisa para contar.

- Já comigo as coisas não andam nada bem...

- Aconteceu alguma coisa?

- E não foi uma coisinha à toa: perdi meu emprego, estou na rua.

- Que coisa!

- É... Alguma coisa já estava me dizendo... Pra falar a verdade, acho que eu não dava mesmo para a coisa.

- Agora você não está dizendo coisa com coisa. Você sempre foi bom com essa coisa dos números.

- Ser bom com números é uma coisa; trabalhar no caixa de uma grande loja é outra coisa.

O garçom traz a comida.

- Não me diga que a coisa pegou?

- Uma coisa estranha... Fazia o fechamento do caixa, faltava dinheiro.

- E você não dava pela coisa?

- Essas coisas acontecem... É normal uma coisinha ou outra. Mas começou a faltar toda semana.

- Toda semana? Aí tem coisa!

- Comecei a desconfiar de um sujeito que ficava tomando conta quando eu saía pra fazer outra coisa...

- E você não chegou e esclareceu as coisas?

- Tentei... Mas na hora H, a coisa deu errado, o sujeito pediu as contas. Sumiu.

- Assim de repente? Mas o chefe te falou alguma coisa?

- Nem queira saber as coisas que aquele imbecil me falou! A coisa ficou feia pro meu lado! Veio um auditor, examinou os balanços, não me deixou explicar coisa nenhuma...

- Nossa! Vou te dizer uma coisa: alguém armou pra você.

-  A coisa toda explodiu. Bum! Agora estou aqui...

- Mas te pagaram todos os direitos, aquelas coisas?

- Recebi alguma coisinha...

- E agora? Está vendo alguma coisa?

- Estou aceitando qualquer coisa! Menos trabalho braçal, que já não tenho idade pra essas coisas.

- Procurou alguma coisa no jornal?

- Não tenho feito outra coisa!

- Fale a verdade: está precisando de alguma coisa? Sem ser dinheiro, que não tenho, nem emprego... pode pedir qualquer coisa.

O garçom traz a conta. O que não estava desempregado paga.

- Bom, vou indo. Ainda tenho umas coisas pra fazer.

- Desculpe alguma coisa... Quando puder eu lhe pago, viu?

- Não precisa se desculpar, eu entendo como são essas coisas.

Silêncio constrangido.

- Se souber de alguma coisa eu te aviso.

- Obrigado, amigo. Encontrar você foi a melhor coisa.

 

F I M

 

 

NÃO CONFUNDA AS COISAS. CADA COISA SIGNIFICA UMA COISA. E O PIOR É QUE O POVO SE ENTENDE! ELE SABE QUANDO É UMA COISA OU OUTRA. SE NÃO FOR UM FALANTE DE PORTUGUÊS, AÍ A COISA FICA DIFÍCIL... MAS É ASSIM QUE A COISA TODA FUNCIONA!

 

Márcia K.

 



Escrito por Marcia K. às 17h09
[] [envie esta mensagem] []



 

 

 

 

 

O REI ESTAVA NU

Forma e conteúdo na redação dissertativa

 

Costuma-se dizer aos alunos que quem sabe pensar, sabe escrever. Infelizmente, isso não basta para fazer alguém escrever melhor! Há muitos artigos dirigidos aos candidatos de redação que se empenham em enumerar detalhes e mais detalhes do ato de escrever, porém deixam de lado o principal, como se fosse óbvio e conhecido por todos: a arte de organizar o pensamento. O pensamento claro, racional, crítico não é um dom natural, aprende-se, treina-se. Depois vem a habilidade de expressá-lo em uma dada língua, utilizando apropriadamente o léxico e a gramática. Pensamento e linguagem são as duas faces de uma moeda. Para fazer uma boa redação é preciso pensar claro e expressar-se adequadamente.

O educador deve ser um agente de esclarecimento e de transmissão de valores para os jovens; ele pode e deve mostrar os vários lados de uma questão a fim de conscientizar os alunos. Porém, numa redação escrita, o que está sendo avaliado antes de tudo é o modo como o aluno, tendo algo a dizer, consegue estruturar suas ideias de modo claro, lógico e ademais, interessante. Os avaliadores de redações esquecem-se de que um texto escrito precisa ser, além de correto, interessante. Eles precisariam ensinar uma arte.

Uma vez que o aluno tenha escolhido a abordagem que dará ao tema, o que verdadeiramente importa numa redação é que ela seja capaz de levar o leitor a uma reflexão por seus argumentos, mesmo que não concorde com sua conclusão. É preciso saber problematizar, não apenas opinar. Ninguém resolve um problema de matemática se não souber enunciá-lo claramente. Sempre há vários elementos envolvidos num tema dado e é preciso citar pelo menos dois pontos de vista para demonstrar e justificar sua propensão a um deles. Citar exemplos, autores, experiências – tudo é válido, só não vale se perder e esquecer o que está defendendo, deixar ideias soltas, sem alinhavar com o todo. Infelizmente a maioria dos professores de redação não está preocupada em que o aluno saiba expressar um pensamento estruturado; geralmente atém-se ao uso da língua e da gramática. Claro que a linguagem é importante, mas é pouco. As crianças e jovens deveriam ser estimulados ao máximo, é seu direito.

A boa redação é como um bom discurso: precisa prender a atenção, suscitar interesse e, ao final, fazer com que a pessoa que ouviu ou leu sinta que não perdeu seu tempo, que adquiriu algo. Como esperar isto da escola, se em nosso país os políticos não sabem falar e os intelectuais maquiam o vazio de ideias em seus trabalhos? Em muitos trabalhos acadêmicos, se tirar a roupagem técnica das palavras, vai ver que o rei estava nu. Confunde-se a forma com o conteúdo. Aceita-se como norma corrente que basta juntar de forma mais ou menos coerente várias coisas colhidas aqui e ali e apresentar. Mas muitas vezes a ideia original do autor e o motivo por que ela merece ser examinada estão ausentes.

É verdade que antes de escrever é preciso pensar. Mas para poder pensar é preciso saber estruturar o pensamento, ser autocrítico, ser autoconsciente. O pensar reflexivo precisa de treino. Para isso servem as escolas, os mestres, os livros. E expressar esse processo de reflexão em uma redação dissertativa não será muito diferente de traçar um mapa com o roteiro percorrido pelo pensamento: partir de elementos definidos, mostrar os problemas, propor estratégias e chegar ao ponto pretendido. A forma como esse caminho será traçado dependerá do estilo de cada um; um será mais descritivo, outro cheio de histórias e exemplos, outro mais filosófico. E do conjunto constituído por: um pensamento reflexivo e lógico, clareza e correção gramatical e estilo da linguagem surgirá a beleza do texto como um todo.

 

 

Marcia C. Kondratiuk

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 15h19
[] [envie esta mensagem] []



Natureza é outra coisa: natureza sou EU


Você já se viu num lugar sem internet nem telefone, ouvindo apenas o ruído dos bichos silvestres e mergulhado numa escuridão somente pontilhada pela Via Láctea no céu? Fazia muito tempo que eu não me via num lugar assim...

A princípio, seus sentidos viciados estranham, o silêncio chega a doer e a tentação de sair correndo e fazer alguma coisa é muito grande! Mas aí, você resiste... Aos poucos vai discernindo o cricricricri das rãs, um que outro peixe pulando no lago, o grito de um pássaro noturno... Que som acariciante é esse? É o som da PAZ...!

Você percebe que não tem escutado muito a sua própria voz... Afinal, falar o quê? Você que sempre tem coisas tão importantes a dizer e a comentar, o que teria de relevante para dizer aqui, aqui onde tudo é sabedoria silenciosa – a serra com a floresta nativa, os bichos da água, os bichos do ar e os bichos que andam silenciosos pelo mato deixando que você apenas perceba seus rastros...? Não, aqui você não tem nada a dizer.

E quando o sol despontar, no outro dia, e você perceber que essa fauna toda não se importa nem um pouco com a sua presença... Que eles te olham tranquilamente como se você fosse um deles... Como se você também fosse um ser inocente e natural como eles, um filho de Deus!

Aí, meu amigo, você vai ficar em silêncio... Vai escutar a majestade das árvores imensas, das flores, dos pássaros grandes e pequenos, das abelhas, dos insetos e das borboletas de todas as cores... Vai sentir a presença dos pequenos mamíferos discretos... Todos com a sua inteligência irretocável, integrados sob o céu. Cada um desempenhando a sua parte no grande concerto. Naturalmente alegres, sem necessidade nenhuma de ficar tagarelando nem procurando emprego para viver...!

Há muito tempo eu não me via num lugar assim. Acho que desse jeito nunca, só talvez lá na infância, na bendita Pindamonhangaba. Redescobri que EU também sou a Natureza.

E que também AINDA existe um pedacinho dessa natureza virgem no Estado de São Paulo, encravado lá em Ribeirão Grande, próximo à divisa com o Paraná. Oxalá os bem-intencionados agroindustriais não lancem seus olhos cobiçosos para aquela região preservada e que ela siga sendo um oásis para o deserto de nossas vidas nas cidades.

Marciak



Escrito por Marcia K. às 11h55
[] [envie esta mensagem] []



Um poema

 

Dentes

 

Os dentes de leite

Se vão

Ao amanhecer,

E latentes,

Outros esperam

Para nascer.

 

Os dentes do velho

Se vão

Sem ele perceber

Que tudo é preciso

Perder

Para crescer.

 

 

Marciak



Escrito por Marcia K. às 11h58
[] [envie esta mensagem] []



AMADOR BUENO, O QUASE REI DE SÃO PAULO

 

Pode parecer estranho, mas a cidade de São Paulo, que neste 25 de janeiro comemora o seu 462º aniversário, quase teve seu próprio rei no período colonial. Nascido em 1584 na vila de São Paulo, filho do espanhol Bartolomeu Bueno, um dos pioneiros que para cá vieram, Amador Bueno da Ribeira tornou-se um homem ilustre. Foi capitão-mor e ouvidor da capitania de São Vicente em 1627. Mas, em 1641, acabou protagonizando involuntariamente o movimento de revolta da elite castelhana, rica e influente, que vivia em São Paulo, contra o rei de Portugal.

Até aquele momento, com o domínio da Espanha sobre o trono português, que instaurou a União Ibérica, a Colônia havia passado a responder diretamente ao rei da Espanha, fato que beneficiou consideravelmente a expansão do território brasileiro com o avanço dos bandeirantes para além da demarcação do Tratado de Tordesilhas, já que não havia mais sentido na divisão da colônia entre Portugal e Espanha.

Porém, D. João IV reassume o trono de Portugal em 1640, com um golpe de estado, o que contrariou bastante as influentes famílias de castelhanos estabelecidos em São Paulo, incluindo genros e outros parentes de Amador Bueno, que não queriam ser vassalos do rei de Portugal, considerando-o um traidor do rei da Espanha.  Este partido paulista, que desejava a separação de São Paulo do resto do Brasil, aclamou então Amador Bueno rei de São Paulo.

É uma cena histórica que daria para encher a tela de qualquer filme, se alguém resolvesse fazer um sobre o tema: ao ser aclamado pelos manifestantes, segundo o historiador Afonso de Taunay, “Amador Bueno recusou a honra e, com a espada desembainhada, pelo contrário, deu vivas ao rei de Portugal”. Amador Bueno refugiou-se no convento beneditino, já ali existente no Largo de São Bento. Então: “Desceram à praça fronteira o prelado e a comunidade, procurando convencer os manifestantes de que deviam abandonar o intento que os congregara”. Arrependidos, os aclamadores de Amador Bueno desistiram do movimento e aderiram à restauração de Portugal. Diz ainda Taunay:

“E assim foi D. João IV solenemente reconhecido soberano dos paulistas a 3 de abril de 1641, num gesto esplêndido de solidariedade lusa, do qual a unidade do Brasil imenso viria valer-se pelo alargamento extraordinário de sua área”.

 

Marciak



Escrito por Marcia K. às 12h03
[] [envie esta mensagem] []



                         UMA HISTÓRIA ABSURDA...

 

Ontem ouvi um sujeito contar uma história muito boa... Era absurda aquela história, mas me deixou pensando e com um sorriso nos lábios. Porque na história que ele contou havia polícia e ladrão como na vida real; só que eles agiam de modo diverso da vida real. Os policiais se esforçavam para evitar que crimes fossem cometidos, ficando vigilantes e atuantes. Quando prendiam os marginais, sentiam pena e tentavam corrigi-los para que saíssem daquela vida torta. Até haviam criado um departamento na delegacia central – imaginem! – onde se revezavam para educar os presos por meio de artes, ofícios e palestras científicas. Havia aulas de música, pintura, escultura e literatura; havia confecção de tapetes em teares manuais, marcenaria e mecânica. A maioria dos presos, depois de aprender alguma dessas habilidades, começava a se sentir melhor, mais digno, e ficava arrependido da sua vida de crimes. Na história que o sujeito contou, as vítimas também recebiam uma atenção especial para o seu sofrimento, por parte de toda a gente. Era como se cada cidadão daquela história se sentisse meio parente próximo daquele que havia sofrido uma violência, um acidente ou simplesmente um azar. Levavam presentes, ajuda em dinheiro e lhe faziam homenagens; tudo para que aquela pessoa se sentisse melhor em sua dor. Todos aprendiam muito com a televisão, pois os programas eram do mais alto nível. Os telespectadores, segundo a história, tinham um vício curioso: sempre que a televisão mostrava algum bom exemplo, uma ação nobre ou um cidadão de qualidade rara, eles não descansavam enquanto não conseguissem imitá-lo, esforçando-se por ser ainda melhores. Ah, mas aquela história que ouvi era mesmo absurda. Os governantes daquele país ficavam preocupadíssimos quando alguma coisa ruim acontecia aos cidadãos; tratava-se de reunir imediatamente os maiores especialistas. Eles estudavam seriamente o caso e não o abandonavam antes de ter uma ou duas soluções para apresentar, a fim de que aquela situação desastrosa para o povo nunca mais se repetisse, ou que fosse mitigada o máximo possível. Naquela louca história, o povo confiava muito em seus governantes! Sabiam que eles estavam ocupando  os cargos sem nenhum interesse próprio, mas por amor ao ofício. A população sentia orgulho de si mesma, sabendo que o meio ambiente estava sendo preservado para as gerações futuras e o progresso material e cultural de todas as pessoas estava garantido. Eu fiquei com um sorriso nos lábios, pensando, pensando... Era mesmo uma história boba, mas tão boa...!   

Marciak



Escrito por Marcia K. às 19h28
[] [envie esta mensagem] []



 

O SILÊNCIO, O NADA E AS NOSSAS POBRES PALAVRAS

 

Na introdução do livro Terceiras Histórias, Guimarães Rosa dá como possíveis definições de “nada”: “uma faca sem lâmina, da qual se retirou o cabo”, ou então: “um cego, de olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto que não estava lá”. Vão nessa mesma linha os paradoxos do tipo: Eu nunca digo a verdade. Se a afirmação for verdadeira, eu estou mentindo. Se estou mentindo, então estou dizendo a verdade; portanto, estou mentindo... E por aí afora, até nos reconhecermos incompetentes, pelo menos no âmbito da linguagem, para dar conta desses mistérios.

O exemplo mostra quão pobre é a nossa linguagem para abranger alguns fenômenos que fazem parte da vida. O silêncio, por exemplo. No parlamento os políticos se reúnem e a sessão é toda constituída de discursos e manifestações orais, com exceção do painel eletrônico e da campainha, que simbolizam certas intervenções. No entanto, vez por outra, para marcar um voto de pesar pelo falecimento de alguém, eles deliberam ficar em silêncio. E justamente no parlamento, lugar onde as pessoas parlam,  decorrem sessenta longos, arrastados, eternos segundos, em que se poderia ouvir até os cupins dentro das paredes; em que cessam as discussões acaloradas e todos se esforçam para ficar calados e imóveis.

Esse intervalo na balbúrdia é como uma bolha de ar num recipiente cheio de líquido, uma bolha de vazio no tecido da falação humana. Os fantasmas que brincam de esconde-esconde por baixo das cadeiras e nos lustres do teto são os pensamentos daqueles homens dinâmicos, subitamente tolhidos, desnorteados com aquele brake feito em suas associações mentais que se desenrolam automática e ininterruptamente até quando eles dormem, nos sonhos. Nessa hora eles se esforçam para pensar no morto; se o conheciam, se ele teria deixado família. Querem sinceramente manifestar seu respeito, embora não possam prometer sua emoção. Mas a posição forçada incomoda, as costas doem, as mãos querem se soltar, os olhos querem divagar. Os segundos finais se arrastam. Finalmente a campainha toca e desfaz-se a brincadeira do stop. Os corpos descongelam e voltam a mexer-se e a tagarelar, como se alguém desfizesse o pause. 

Como registrar esse ato em ata? É fácil escrever que Fulano disse tal coisa; que Beltrano discordou ou acrescentou tal outra. Difícil é escolher o verbo para o silêncio. Fez-se um minuto de silêncio? Ora, o silêncio não se faz, ele é preexistente, é ele que contém todos os sons. Observa-se um minuto de silêncio? Denotaria um comportamento, como no caso de Fulano observou luto. Mas eles simplesmente deixaram de falar e esperaram, como o estancamento de uma hemorragia. Esperar  é outro termo que usamos mais do que moedas de um real e, no entanto, é de um absurdo completo. Ao esperar, o que eu fiz de fato? Nada. Fiquei lá parada, esperando. Nossa vida é toda constituída de lapsos de vazio e de silêncio. No entanto, estamos sempre nos colocando como sujeitos ativos ou passivos de uma ação, já que cada um de nós é o centro de nosso próprio universo. O que fazer para nomear aquilo que é muito maior do que nós? Gosto da solução dada por Arnaldo Antunes em sua canção, ao descrever um nada:

 Alta noite já se ia/ Ninguém na estrada andava/ No caminho em que ninguém caminha/ Alta noite já se ia/ Ninguém com os pés lá/ Nenhuma pessoa sozinha ia/ Nenhuma pessoa vinha/ Nem a manhãzinha/ Nem a madrugada/ Alta noite já se ia/ Ninguém na estrada andava/ No caminho em que ninguém caminha/ Alta noite já se ia/ Ninguém com os pés lá... 

 

Márciak 

 

 



Escrito por Marcia K. às 19h14
[] [envie esta mensagem] []



 

Insônia

 

Há muito tempo sei que o responsável por minha insônia é um personagem que se deita comigo e passa o dia todo e todos os momentos comigo: o Cerebrino.

Vamos juntos para a cama em boa amizade; acontece que Cerebrino tem uma energia inesgotável e não me deixa dormir. Ele é inteligente, de uma inteligência viva, mas seu traço mais marcante é a curiosidade. Tudo ele quer saber, tudo quer investigar e conhecer a fundo, fazer relações. Em muitos aspectos eu o comparo a uma criança quando ganha um jogo que lhe agrada; ela esperneia e não quer parar de jogar. E lá vamos nós pela noite a fora, eu tentando cair no sono, ele pra lá e pra cá batendo a sua bolinha de pensamentos, incansável.

Tentei usar minha autoridade com ele, não deu certo. Ao apagar as luzes e me aconchegar nas cobertas, ele começa: Que barulho é esse? O que essas pessoas estão fazendo? Eu as conheço? Ah, já posso imaginar... É nisso que dá... E blá-blá-blá, blá-blá-blá. Sua capacidade de filosofar em cima de qualquer fato banal é impressionante. Tento ignorar seu zumbido em meus ouvidos, mas ele é insistente, provoca-me para que lhe dê atenção. Você lembra que amanhã tem que fazer aquilo? Como vai fazer? E se... ? E blá-blá-blá, blá-blá-blá. Eu lhe digo com firmeza: Basta! Pare de falar, amanhã conversaremos. Ele se cala por alguns instantes, amuado. Em seguida reacende como uma brasa varrida pelo vento e recomeça: Mas que coisa, aquele filme, não? Aquele personagem é mesmo uma figura... E blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Então tentei ignorá-lo, como se faz com uma criança impertinente que ainda não compreende suas razões. Usei de truques. Comecei a me esgueirar para a cama sem fazer alarde, sem ao menos acender as luzes, pois ele é inflamável ao menor estímulo.  Fui para o quarto pé-ante-pé, evitando concentrar-me demasiado na toalete noturna e falando comigo mesma: Hoje quero dormir, não vou ficar pensando em nada, NADA! Para quê fui dizer isto? Ele se eriçou de imediato, desconfiado: O que está acontecendo que eu não posso saber? Por que está me deixando de fora? Eu quero saber! Eu preciso saber! E... durma-se com um barulho desses!

Existe um sentimento que muito atormenta qualquer insone: a inveja mortal daqueles seres que dormem e roncam tranquilamente à sua volta! Um desses seres incompreensíveis, ou seja, que dormem, deu-me conselhos, empenhou-se em me dar a receita de como dormir. É muito simples, disse ele. Na verdade, é a coisa mais simples que existe. Hum... Simples para ele, é claro. Você NÃO TEM que pensar que quer dormir ou que não quer pensar... Você simplesmente tem sono, e dorme.

Ultimamente tenho percebido que mesmo quando estou dormindo, ou penso que estou, o Cerebrino continua falando, indiferente ao fato de estar falando sozinho. Em alguns pontos do rio do sono, sinto que flutuo quase à superfície e me dou conta de que ele continua lá em cima conjeturando, considerando, lembrando, escrevendo mentalmente do ponto onde havíamos parado antes de deitar. O malandro deve ser sonâmbulo!

Estou tão cansada de lutar com o Cerebrino na hora em que desejo silêncio... Só numa circunstância ele fica quieto: é quando alguma coisa muito maior do que ele, indefinível, sussurra no fundo da mente e ele não consegue traduzir. Então ele para, extasiado, mas por pouco tempo. Logo vem querer me contar a experiência.

Cerebrino é o meu fiel escudeiro, em quem eu tropeço a toda hora. Meu Sancho Pança desajeitado, mas de bom coração. Um dia, tenho a esperança, ele há de aprender a esperar que eu o chame, há de confiar que eu não corro perigo sem ele e há de se acalmar. Calma, Cerebrino... Calma. Roma não foi feita em um dia... Deixemos esse assunto para amanhã... Esse assunto que... Do que estávamos falando mesmo...?

...

 

MOCK/02/10/2015

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 11h48
[] [envie esta mensagem] []



As Duas Faces da Terra

 

Passarinhos fazendo ninhos, borboletas em danças sensuais, botões aflorados em pencas, pitangas e jabuticabas pelo chão... O mundo se reveste de cor, cheiros e sabores, da agitação e do ruído alegre de aves e insetos. A primavera está chegando e mostra a sua cara de beleza e sensualidade.

Assim como no koan em que tanto se pode visualizar uma bela jovem ou uma velha no desenho, segundo a visão de quem olha, assim também nosso planeta tem duas faces distintas, que ele alterna com as estações. Outono e inverno são tempos que induzem ao recolhimento, à maturidade. Tempos de colher os frutos do que se plantou no passado e também de amargar as dificuldades que vemos ao nosso redor. Muitas coisas que semeamos não vingaram; muitos sonhos não foram realizados e a velhice, a solidão, o desencanto parecem querer tomar conta de tudo.

Mas então, quando o mundo inteiro parece decrépito e sem esperanças, surge a primavera como um milagre. Uma porção de filhotes nasce dos projetos velhos e desacreditados. Folhas verdes, flores e frutos nascem de árvores encarquilhadas. Os jovens fazem projetos de namoro e casamento, os estudantes escolhem carreiras. O ar fica mais doce novamente e a tristeza pelo sofrimento dos povos, nestes tempos difíceis, vai sendo temperada por uma esperança que é um presente da Terra. É a sua face de bela jovem que ela nos mostra outra vez, para que não desanimemos e voltemos a sorrir para a vida.

Primavera é tempo de se alegrar e empreender novamente. É tempo de se debruçar sobre a natureza, sobre as crianças, os adolescentes e os jovens, com uma nova compreensão e boa vontade. É tempo de ter compaixão dos velhos, dos doentes e dos que se sentem à margem. A primavera é um chamado para a vida. Ouçamos o piar dos pássaros e tudo em volta brotando e ressurgindo da morte. Brindemos a vida e deixemos nossas janelas abertas para a solidariedade entrar.

 

 

Márcia Kondratiuk



Escrito por Marcia K. às 22h25
[] [envie esta mensagem] []



FLAGRANTES DA SERRA...

Devagar, dizem as letras no asfalto, Passagem de Pedestres. Mil vezes já passamos por esta estrada nos últimos anos em horários diferentes e jamais vimos um pedestre sequer atravessando a via. Devem ser noturnos, diz ele. Devem ser invisíveis, digo. E sem dizer nada miramos essas matas das margens, tantos morros desabitados... Deve haver algum cemitério indígena por aqui. Sim, claro, seus moradores devem querer cruzar a estrada como nos velhos tempos, por isso nunca os vemos, pedestres fantasmas. Mas as letras brancas estão erradas. O que eles querem dizer é: Passagem de Pedasmas...

Tem uma coisa diferente na Tamoios, que vai rasgando o parque estadual da Serra do Mar. Apesar de existir há uns bons anos esta estrada tem algo de virgem, como as matas bem antes, quando a serra se descia a pé ou em burro. Mesmo hoje, algo na natureza sempre a está desarranjando, despejando surpresas em sua passagem, jamais autoestrada pronta como uma Castelo Branco. Cheia de obras, naturalmente. Já nos acostumamos com as de duplicação, agora com o rodoanel que se faz para abreviar a chegada ao litoral norte. Eternos trechos marcados com soldadinhos-cones que às vezes tombam no cumprimento do dever, esbarrados por algum veículo mais espaçoso. Bravos cones, logo serão levantados.

Mas como, então, um acidente tão surpreendente? Acontecido esta manhã, quando um caminhão transportando gás despencou no abismo e explodiu na ribanceira... Polícias, resgates, caminhões com guinchos e equipamentos como se vê nos filmes... Dizem que o motorista se salvou, que conseguiu pular antes de cair. Incrível imaginar que em fragmentos de segundo esse homem se viu projetado no meio de árvores caindo na direção do mar imenso lá embaixo... Empurrou a porta e caiu de lado, sendo seguro pelos espinheiros que o impediram de rolar? Se não desmaiou, esse homem cobriu o rosto para se proteger dos fragmentos da explosão, depois olhou para os pedaços de céu que apareciam no meio das copas, para o Atlântico lá embaixo... e sorriu antes de fechar os olhos.

Ah sim... Há tanto para ver, os olhos não dão conta quando se é passageiro. Em instantes vou vendo a paisagem do mar ao longe cercado de montanhas, as plantas surpreendentes a cada curva da estrada, sempre com algum pássaro exótico cruzando o caminho – este que passou é um pica-pau; as borboletas e... Meu Deus, o que era aquilo? Eu não tinha o nome desse bicho para completar a frase, mas juro que eu vi, descendo por um tronco liso, algo que não era um gambá, pois não tinha o rabo; nem esquilo, pelo tamanho; nem macaco... Pretíssimo e felino, sim, só podia ser um gato-do-mato... Isso foi lindo.

E então... Há o céu. Tão azul, com nuvens brancas de algodão – com perdão da repetição – se esfumaçando por cima da serra, se escondendo por trás das montanhas e indo se banhar lá nas praias... Em um momento vem-me um pensamento que não é algodão compacto, muito menos um tecido tramado; é ainda como estas nuvens em fiapos brincando de flutuar por cima da cabeça dos homens... Penso que os pensamentos que vão surgindo nas cabecinhas humanas são como os vapores que formam estas nuvens. Por que não poderiam nossos vapores mentais vir se juntar à umidade nestes berçários de nuvens na serra, e junto com ela ser responsáveis pelas grandes cúmulos-nimbos que fazem as chuvas? É por isso – entendo - que estamos vivendo uma época de seca tão terrível. As cabeças continuam pensando, o problema é que tão logo uma ideia se forme, por mais boba e corriqueira que ela seja, imediatamente a pessoa quer falar para alguém; pega o telefone, o whatsapp ou o facebook, se ela não tiver um blog, e lá se vai a ideia, pregada no papel virtual, e morre... Deixa de virar nuvem que um dia ia virar chuva para fertilizar novas e boas ideias...

Não vou mais pregar nesta página o que resta das minhas impressões da descida da serra. Que elas continuem como fiapos de impressões, de pensamentos e desta alegria de olhar para o céu e ver tantas nuvens vagando soltas, sem destino, na direção do mar...

Marciak

 



Escrito por Marcia K. às 16h19
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]