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Olhar da Semana


Do Fundo do Bosque da Memória

 

Do fundo do bosque da memória

Surgiu o cheiro inesperado do loureiro,

Voltei a ser feliz criança que era

Quando meu mundo era uma casa de pedra

E na lareira havia sempre um fogo brilhando.

 

O ar estava cheio das canções

Que chegavam no vento

Orquestradas pelos maestros do tempo

E meus sonhos, cruzando a madrugada

Sobreviviam na manhã rosada

Com gosto de ovo quente, amora e pitanga!

 

A trilha sonora do entardecer

Era feita do murmúrio das folhas

Da chuva bendita caindo,

Da voz de minha mãe cantando,

Do gorgolejo de passarinhos vagabundos

Como eu... Tudo era meu!

A estrada do futuro era infinita.

 

Agora que a cavalaria dos fatos

Invadiu meu reino na primavera,

Espalhando as pedras, pisoteando as flores

E tudo se encheu de formigas,

Eu ainda continuo sendo cigarra...

 

Vou entoando as cantigas

Que aprendi naquelas tardes douradas

Em meu jardim de criança bem-amada,

Falando ao sol, falando à lua

Dançando a ciranda que a vida ensina.

 

E o que me dá esperança de seguir

É sentir no vento o cheiro do loureiro,

Apertar os dedos quentes do companheiro,

Lembrar que aquele fogo ainda está lá brilhando

E não se apaga com qualquer vento

Pois é de um reino fora do tempo.



Escrito por Marcia K. às 21h00
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A ESTAÇÃO DO FUTURO

 

1987

Nessa época nós morávamos nos Jardins em apartamento alugado e, claro, sonhando com a casa própria onde criar nossas duas filhas ainda pequenas. Pesquisa daqui e dali; começamos pelos bairros preferidos e fomos descendo e nos afastando... O escasso orçamento dava apenas para a entrada em um pequeno apartamento nos cafundós do Butantã, lá de onde só conhecíamos as cobras do famoso instituto. “Tão longe vamos viver?”, eu cismava, vendo passar pelas janelas do carro os vastos campos então desabitados da rodovia Raposo Tavares. Nem era tão perto da USP assim, nem do Instituto Butantã, não era perto de nada. Mas os mais velhos nos alentavam: “Logo, logo vai chegar o metrô. Tudo vai ficar pertinho”.

De fato. Era a campanha para o governo do Estado, e o candidato Fleury anunciava como seu ponto forte a criação da linha Amarela do metrô. Que beleza! Os projetos já estavam no papel e ali podíamos ver perfeitamente a estação de Vila Sônia – a nossa futura estação. Mudamo-nos confiantes para o novo bairro.

 

1997

Nossas filhas já são jovens que têm carteiras de motorista e dirigem o velho jipe para ir à faculdade, aos estágios, às baladas. Ninguém pensa mais em utilizar o metrô, há tanto tempo sem sair do papel. A esperança agora é para nossos netos que vão nascer. Quando eles tiverem que ir à USP, aos estágios, aos namoros certamente vão poder contar com o metrô, ali pertinho, na estação de Vila Sônia. Há que se ter confiança no futuro.

 

2007

Agora não deve realmente faltar muito, se a gente não tiver muita pressa. Olhem que beleza, quantos quarteirões inteirinhos já foram arrasados para dar lugar à estação! As casas que não foram demolidas em nome do progresso tiveram suas estruturas abaladas com o impacto das obras. Resolveu-se o caso na justiça, com ou sem indenização às vítimas, o que não vem ao caso. Das consequências das obras para o trânsito nem falemos. Se quisermos, por exemplo, fazer uma conversão à esquerda na avenida Francisco Morato, temos de andar mais de 5 quilômetros para acessar um retorno.

 

2017

A paisagem está cada dia mais feia, o ar mais poluído, o trânsito mais congestionado. Os ônibus que vêm de Cotia, Embu das Artes, Taboão da Serra ou Campo Limpo em direção a Pinheiros congestionam a pobre Vila Sônia, destroçada em seu traçado viário e desfigurada em sua paisagem pelos horrendos vazios criados pela futura estação, só cercados com feios tapumes e mostrando aos olhos curiosos apenas máquinas e ferros retorcidos abandonados. Abandonados? Mas, e as obras? Começaram e pararam, como estamos cansados de ver. Verificação de fraude, suspensão do contrato, dispensa da empreiteira e aguarde-se nova licitação... O que são mais dez ou quinze anos de um bairro deteriorado? Para que pressa? Há uma outra estação ali no Butantã... Não está bom? Para nossos netos, se não quiserem ir de carro, basta caminhar dez quarteirões a pé, chegar à avenida Francisco Morato, tentar entrar num ônibus lotado que vai ao metrô Butantã e pronto! Em cerca de uma hora pega-se o metrô e aí fica tudo pertinho. Mas isso é só até que inaugurem a “nossa estação de Vila Sônia”. Paciência!

 

2027

Como o mundo mudou nos últimos 40 anos! Ninguém imaginou que o transporte público evoluiria tanto. Começaram com aquelas ideias malucas de veículo sobre trilhos, que alguns políticos no passado chamaram de Fura-Fila. Logo veio o trem-bala, que liga a cidade ao aeroporto de Guarulhos em apenas minutos. E agora que o metrô convencional ficou obsoleto, nosso Governador acabou de substituir todas as velhas linhas coloridas pelos metrôs-balas que chamam de Metrô do Futuro. O povo está adorando o aspecto dos novos vagões que lembram naves espaciais, bem como os protetores de olhos e ouvidos que são entregues aos passageiros para que não sofram os efeitos da velocidade. Eles mal acabam de ajustar esses equipamentos, sentem um zumbido e... pronto! Chegam a qualquer parte, dentro e fora da cidade, pois o circuito do metrô-bala atinge todos os municípios até o âmbito do Rio de Janeiro e algumas cidades do Paraná e de Minas. Ninguém mais quer saber de andar de carro em São Paulo. Os cemitérios de automóveis estão proliferando ao redor das estradas, pois se há uma coisa desnecessária hoje em dia é automóvel.

Hoje mesmo estão inaugurando uma dessas estações do Metrô do Futuro. A festa deve ser bonita, com a presença de autoridades e desses cantores que a Prefeitura gosta de contratar para animar os eventos. Mas, ó coincidência! Não é que justamente hoje vão também inaugurar a nossa estação, aquela estação do futuro em que ninguém mais acreditava e que não vai mais servir para nada, mas na qual foi injetado tanto dinheiro e sob a qual estão enterrados tantos sonhos de tantas famílias, que não era possível deixar de inaugurar, nem que seja para que amanhã mesmo, depois de recolhidas as bandeirinhas e varrido o lixo da festa, comecem a desmontar os trastes do velho metrô convencional da velhíssima estação do futuro de Vila Sônia?

 

Marciak



Escrito por Marcia K. às 17h29
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A ÁRVORE DE RAÍZES TORTAS

 

 

 

A que me tornarei quando chegar a hora

 

Estará debruçada numa curva da estrada

 

E servirá de abrigo aos peregrinos:

 

Será uma antiga árvore rugosa

 

De raízes tortas e galhos retorcidos

 

Onde os pássaros construirão ninhos

 

E insetos e bromélias formarão cidades.

 

Da seiva que se levantará da terra

 

Frutos sumarentos se abrirão em pencas

 

E descansando sob a cúpula de sombra

 

Dessa que um dia serei,

 

Os viajantes, exaustos do caminho bruto

 

Se espantarão de árvore tão velha

 

E de tão tortas raízes

 

Dar tantos e tão doces frutos.

 

 



Escrito por Marcia K. às 15h12
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ADÃO E EVA

Quem disse que não tem ouro pelo chão em que a gente tropeça sem esperar? Outro dia dei com este conto de Machado que eu não conhecia e a sensação foi exatamente esta:  a de um metal precioso ao alcance da mão que pode mudar nossa vida, fazendo-nos enriquecer. Porque ler uma obra prima é como achar um tesouro, muda nosso olhar e pode ressignificar a vida...

 

ADÃO E EVA

Machado de Assis (conto publicado em Várias Histórias)

UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor: “Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.”

Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo. “Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso”. “Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair tudo com boa significação”. “Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa”. “Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros...” “Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário”. “Vá lá, diga”. “Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo...” “Cruz! exclamaram as senhoras”. “Não diga esse nome, pediu D. Leonor”. “Sim, parece que... ia intervindo frei Bento”.

“Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal nã o ficasse a desesperança da salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da água e do ar.

Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de atenção.

Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal."

Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro, admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.

Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroçado.

“Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?” A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a: “Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva”. “Adão e Eva?” “Sim, Adão e Eva”. “Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como palmeiras?” “Justamente”. “Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detesto-os! Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal...” “É justamente para isso”.” Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei...”

“Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai...”

“Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio segredo da vida, não?” “Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...”.

Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu. “Quem me chama?” “Sou eu, estou comendo desta fruta...” “Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!” “Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e terás um grande poder na terra.” “Não, pérfida!”

“Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo...”

Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.

Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel: “Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e traze-os para a eterna bemaventurança, que mereceram pela repulsa às instigações do Tinhoso”.

E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disse-lhes: “Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela repulsa às instigações do Tinhoso”.

Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência; então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde miríades de anjos os esperavam, cantando: “Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade”.

E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...

Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou: “Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?” “Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo”.

E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce: “Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?”

 

Comentário ao texto:

Neste conto o grande Machado, com a sem-cerimônia de um cronista descrevendo um jantar entre amigos de classe média, na Bahia do século 18, simplesmente subverte a maior fábula do nosso imaginário, a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Mostra que tudo poderia e deveria ter-se passado diferentemente. E conhecer a origem é conhecer tudo...



Escrito por Marcia K. às 17h51
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 RECEITA FEMININA

1.    TOME 7 DIAS ENSOLARADOS (INTERCALE ALGUNS DIAS DE CHUVA) E EMENDE TODOS COM A LINHA DO DESCANSO (O IDEAL É A LINHA DE NOITE PRETA COM ESTRELAS, SONS DE GRILOS E RÃS, MAS SE NÃO TIVER, BASTA O SONO) ASSIM OBTENDO BELAS TIRAS DE SEMANAS.

2.    TOME 4 SEMANAS E JUNTE-AS NO SENTIDO DO COMPRIMENTO, COM LINHA DE TRABALHO INCANSÁVEL, NAS CORES DE SUA PREFERÊNCIA (QUALQUER TRABALHO DARÁ UM BOM RESULTADO) – ASSIM OBTENDO RICOS QUADRADOS DE MESES.

3.    TOME 12 QUADRADOS DE MESES E EMENDE-OS NA PROPORÇÃO DE 3 X 4 (3 QUADRADOS NA LARGURA E 4 NO COMPRIMENTO), ALTERNANDO O SENTIDO DAS TIRAS PARA COMPOR UM XADREZ SUAVE. COSTURE-OS COM LINHA DE APRENDIZADO INCANSÁVEL, EM CORES VARIADAS (DESCARTE OS INÚTEIS OU ENGANOSOS QUE PODEM SE ROMPER E PÔR TODO O TRABALHO A PERDER) – ASSIM OBTENDO MARAVILHOSOS RETÂNGULOS DE ANOS.

4.    FINALIZAÇÃO: VOCÊ TERÁ O NÚMERO DE ANOS QUE TENHAM SIDO CONCEDIDOS A VOCÊ. NÃO IMPORTA A QUANTIDADE. JUNTE-OS PARA FORMAR UM BELO MANTO QUE É SOMENTE SEU. FAÇA SEU TRABALHO COM DEDICAÇÃO. NINGUÉM PODE FAZÊ-LO POR VOCÊ.

5.    DICAS: VARIE O EFEITO FINAL DO CONJUNTO ESCOLHENDO BELAS ESTAMPAS PARA CADA UM DE SEUS DIAS. AS MAIS BEM-COTADAS NO MERCADO SÃO AS ESTAMPAS DE ALEGRIA, SOLIDARIEDADE E DEVOÇÃO. USE SEMPRE LINHAS DE BOA QUALIDADE PARA JUNTAR OS PEDAÇOS, NÃO DEIXE POR MENOS. SE SOBRAR ENERGIA, BORDE TUDO COM CAPRICHO, USANDO FIOS DE OURO E SEDA.

FAÇA COM CARINHO O MANTO DA SUA VIDA. VOCÊ SE VESTIRÁ COM ELE PARA ATRAVESSAR A ETERNIDADE.

 

MarciaK

 



Escrito por Marcia K. às 17h16
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A GRANDE MUDANÇA

Parece consenso geral que o mundo mudou. As diferenças gritantes entre o modo como vivemos hoje e o modo anterior aos computadores estão bem à vista e não apenas nas grandes linhas do comportamento humano como o amor, o trabalho, os gêneros. Basta olhar à nossa volta. Vejamos a forma como lidamos com o espaço. Uma das coisas que caracterizavam o viver dos nossos antepassados eram os espaços inúteis. Eles estavam por toda parte e ninguém se incomodava. Tinham o direito de existir simplesmente porque estavam ali. Nossas casas eram preenchidas por objetos encostados, quartos fechados, zonas abandonadas no quintal. Os bairros estavam cheios de terrenos baldios que não eram de ninguém e a cidade era um mundo cheio de mistérios a explorar. E agora? Tudo precisa ter função, tem de ser útil para ter o direito de ser. O que fazer com aquela cadeira de balanço na sala, se a vovó não está mais lá? Logo, logo vai ser vendida, revertida em dinheiro para se adquirir outra coisa, ou doada para uma instituição de caridade para liberar o espaço. Quartos ou áreas ermas são impensáveis, com o preço do metro quadrado! Cada cantinho da casa ou do condomínio tem de abrigar algum tipo de atividade útil. Foram-se os intervalos cheios de mato onde a criançada brincava ao lado de casa, e as áreas verdes intocadas foram todas urbanizadas, com os devidos impostos à prefeitura. De um ponto de vista houve avanço, a cidade se modernizou, a administração se tornou mais competente. Mas do ponto de vista humano...? Um livro, para que guardar depois de lido? O pensamento antigo era: “Não estou mais usando isto, mas deixe aí que algum dia alguém pode precisar”. E esse alguém podia demorar, mas chegava. Hoje ele só tem direito de permanecer na estante se for para compor a decoração. Vazio, espaço, existência sem destinação estão irremediavelmente extintos.

Essa mentalidade utilitária de coisas e espaços é, sem dúvida, um subproduto do capitalismo que reduz tudo a seu valor ou possibilidade de valor monetário. E a conclusão inevitável é de que a mudança está atingindo muito mais do que nossa organização social, está atingindo nossos valores humanos. Se os objetos todos precisam ter função, e mais, precisam ter um valor reconhecido pela sociedade de consumo – marca, grife, moda, vanguarda, tecnologia de ponta, etc -, o que fazer com todas as coisas que não se encaixam nesse postulado? Um carrinho feito com pedaços de madeira pintada, por exemplo. Toalhinhas de crochê e mil adereços feitos pelas mãos hábeis das mulheres. Um balanço improvisado com corda e tábua num galho de árvore no quintal. Os exemplos são incontáveis, de coisas que eram fabricadas a toda hora pelo engenho de alguém e que por isso vinham carregadas da alegria do fazer espontâneo e do afeto com que era imaginado e realizado. Hoje em dia não se pode pendurar algo na parede  sem ter uma explicação pronta: é do artista tal, ou é um artesanato trazido de sua última viagem, etc. E se for só uma folha seca que você achou bonita? Vão chamá-lo de esquisito ou de acumulador. Quem guarda coisas sem valor é acumulador. Sinto pena dessas pessoas que são rapidamente taxadas de desequilibradas – algumas até podem ser – só porque têm uma apreciação estética por esse monte de cacarecos que a nossa civilização chama arbitrariamente de “objeto” ou de “lixo”. No fundo não é tudo a mesma coisa? Não somente os objetos fabricados, mas cada ente natural do nosso planeta parece estar listado nesse grande estoque de ‘produtos’ que podem gerar lucro de um jeito ou de outro. Assim, as praias, as ilhas, os bosques cheios de madeiras e cada pedacinho natural vai sendo incorporado pela grande fábrica que vê tudo como matéria-prima para usar e soltar do outro lado como coisas com suas utilidades.

E o utilitarismo não fica apenas nos objetos e espaços, vai atingindo todas as nossas formas de expressão. Experimente dançar: só se for em um estúdio de dança, pagando as mensalidades. Experimente assobiar na rua. Cantar uma canção fora do chuveiro. Costurar sua própria roupa. Somos ameaçados o tempo todo pelo ridículo de tentar simplesmente fazer o que gostamos, sem utilidade e sem pagar nada a ninguém. O desdobramento desse estado de coisas é a onda imensa de pessoas que hoje estão sofrendo de depressão. O que dizer das crianças, dos idosos, dos doentes, dos especiais, dos marginalizados, dos analfabetos, dos pobres...? Qual o nosso valor para o mundo se não temos o cabelo liso ou certo número de curtidas na rede? Se não temos um cargo, um emprego, um carro, um nome? De certa forma, nossa existência ficou condicionada ao que temos e à nossa posição funcional, de sermos ou não um ‘produto de valor’ para a sociedade. Ora, cada um que se olhe no espelho vai duvidar de seu próprio direito de existir e ser feliz.

Aí está o efeito dessa pequenina e trágica mudança. O vazio, o espaço e a existência sem destinação foram irremediavelmente extintos. Mas não será justamente aí que podemos encontrar o mais importante de tudo? Penso que esse é o ponto de virada, a grande rebeldia que não precisa se dar por meio de guerras nem grandes ações de marketing. Pelo contrário, ela será totalmente silenciosa e individual. Começa por voltar a valorizar exatamente as coisas que não custam nada e nos foram dadas de graça, a conceder um valor soberano à existência.

Marciak

 *A imagem: Portinari, 'Meninos Soltando Pipas'

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 16h04
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Oráculo em Haikais

 

PERSONALIDADE

Manhã carnaval:

Contidas nas nuvens brancas

Gotas de bem e mal.

 

INDIVIDUALIDADE

Densos labirintos

E florestas percorridos,

Eis imenso o mar.

 

DESTINO

A aurora demora.

Na silente madrugada

Prepara seu sol.

 

UMA DICA

Viajam no vento

As já maduras sementes

Indo ao seu lugar.

 

Marciak 

 



Escrito por Marcia K. às 12h34
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DICIONÁRIO

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A vida andava chata quando ganhei um dicionário de sinônimos. A pessoa que me deu, presenteou, ofertou disse-me que com ele minha vida ia mudar, variar, transformar. Botei o dicionário debaixo do braço e pensei, conjeturei, imaginei que agora sim, eu ia conquistar, atrair, adquirir um namorado. Mas logo descobri que ser eloquente, facundo, expressivo não é muito útil para o amor. Depois de algum tempo de conversa, ele se levantou furioso, colérico, furibundo. Quando perguntei por quê, arrancou o dicionário da minha mão, apontou uma palavra e foi embora. A palavra era: insuportável, intolerável, molesta. Pôxa...! Bem, o que não tem remédio, correção, emenda, remediado está. Pensei que se o dicionário não servia para o amor, ele devia servir para arrumar um emprego, colocação, trabalho. Quando o entrevistador me perguntou se eu era pontual, respondi: ‘Pontual, assídua e precisa’. Se eu tinha iniciativa? Respondi: ‘Iniciativa, ação, ousadia’. Se eu tinha ambição de crescer na empresa? Respondi que tinha não só ambição, mas aspiração e anelo. Fui reprovada. Quando telefonei insistentemente para saber o motivo, razão, causa da minha derrota, fracasso, ruína, ele me mandou entregar um bilhete, nota, apontamento onde estava escrito: ‘Superabundante, excessivo, demasiado’. Fui consultar: eram os sinônimos para ‘prolixo’. A pessoa que me deu o dicionário então me ligou para saber se minha vida continuava chata. Chata? Oh não!, respondi. Depois do dicionário de sinônimos ela se tornou aborrecida, tediosa, enfadonha, molesta, desagradável, irritante, maçante... A pessoa desligou.



Escrito por Marcia K. às 16h41
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CONTO À LA MACHADO DE ASSIS

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Tem pressa? Eu o convido a entrar comigo naquele parque municipal para conhecer uma pessoa. Não deve demorar mais de dez minutos. É um exemplo das peças que o destino nos prega! Tomemos esta trilha frondosa que, ao cabo, vai dar em um viveiro de aves, o maior viveiro que há por estas bandas, segundo se diz, e de acordo com a propaganda do prefeito Haddad. Já lá o avistamos! É de fato imenso; contém exemplares emplumados de todas as três Américas, da Europa, Ásia e Oceania. A pessoa de quem lhe falei não deve estar longe... Ah, lá está ele! O Batista. Jerônimo Batista é aquele que você pode ver ali dentro, sentado no poleiro com os tucanos. Não é preciso lhe responder, porque ele não está falando conosco; fala mas é às aves, dorme com elas, dá-lhes de comer por dentro dos bicos... Está a parecer que ele crê que é uma delas, um seu igual. Os guardas do parque deixam ficar este pobre louco porque é manso, não faz mal a ninguém e cuida dos pássaros como nenhum outro.

Pois o amigo deve saber que todo louco tem uma história por trás. Com este Batista não é diferente. Foi rico e influente, um alto funcionário de um desses bancos que progridem tanto no nosso país. Quando aconteceu, já estava aposentado e viúvo, vivendo sozinho numa casa simples, mas com largueza. Sei porque me dou com uma prima sua, que frequenta o mesmo salão de cabeleireiro que eu. Pois entre uma pedicure e uma manicure contou-me sobre este seu primo Jerônimo, outrora tão integrado no corre-corre das coisas, uma figura presente nas redes sociais, que teve foto estampada até em revistas. Um belo dia, acordou o Batista lendo pensamentos. Assim, do nada; a pessoa lhe dizia alguma coisa, ou então nem dizia nada, só fazia lá as suas coisas, o Batista a observava e, num instante, enxergava o pensamento da pessoa em letras maiúsculas, sem confusão possível. Foi assim que ele percebeu que todas as pessoas que ele conhecia o manipulavam de algum modo. Todas não; havia exceções, como essa prima de quem lhe falei e mais umas três ou quatro pessoas no máximo, entre parentes, amigos e conhecidos.

- Como é possível – pensava ele – que eu não tenha me dado conta de que todos me dão corda como a um macaquinho para me fazer pular e dançar a seu bel-prazer?

Ele se expressava assim porque era meio poeta;  após o fenômeno da telepatia, viu-se logo como um desses brinquedos de corda que as crianças se divertem manipulando, nas mãos dos parentes e de toda a gente com quem se dava. E, fato suposto, fato comprovado. Passou a observar-se nas reações que tinha com cada pessoa. Ficava espantado com o que via e que nunca vira! A filha caçula, por exemplo, que manipuladorazinha! Ele a adorava e era incapaz de lhe negar o que quer que fosse, mas pensava que lhe dava por querer, como quem dá o coração. Olhando agora com os olhos de dentro bem abertos, ei-la chegando!

- Papaizinho querido, você tomou sua sopinha hoje? Tome mais um pouquinho... Olhe, eu lhe trouxe uma flor ali do jardim. Você ainda tem aquelas garrafinhas de vinho que estavam guardadas ali na estante? Vou pegar algumas, viu? Vou ter visitas hoje à noite. Se cuida, paizinho, eu te amo!

Beijo estralado na testa, a moça saiu como um pé de vento. Nem deu tempo de conversar um pouco... Agora ele se lembrava que, pouco a pouco, todas as suas coisas se transferiam para o apartamento da garota, assim como a sua poupança, o carro que ela dizia que era perigoso para ele dirigir... Sem dúvida, sabendo do seu xodó, ela o manipulava desde que era uma menininha.

Ocorreu-lhe quase simultaneamente a lembrança do Vargas, aquele safado que agora nem atendia mais ao telefone. Fazia um ano, o Vargas, antigo colega de banco e que agora atuava em um escritório imobiliário, viera todo amigo, risadas e tapinhas nas costas. Até combinaram e fizeram um passeio de escuna, domingo de sol, a esposa dele também só simpatias e mimos. Aí viera a proposta: um negócio imperdível que o Vargas estava guardando só para ele, em vista da amizade. Um galpão de uma fábrica que falira, lugar excelente e muito comercial, que estava sendo vendido por uma pechincha. Ele próprio não adquirira o imóvel por conta de outras dívidas assumidas, mas se lembrara logo do Jerônimo. O Batista estava mesmo procurando algo seguro para investir suas economias, foi, comprou. Meses depois apareceu o mico, as pendências judiciais entre os herdeiros que estavam lhe dando a maior dor de cabeça. E o Vargas? Silêncio absoluto, parecia que havia morrido.

- Seu Jerômo! – a empregada estava parada diante dele e balançava o espanador para lá e para cá, olhando para o tapete.

- O que é, mulher?

- Eu já disse que o senhor é o melhor patrão que eu já tive, correto, humano, trata a gente como gente e não como empregada...

- Fale logo, criatura.

- Aquela minha irmã que mora em Minas... Está doente, coitada. Quer que eu vá cuidar dos meninos. Não posso deixar a Dolores assim numa hora dessas!

- Quanto tempo vai demorar?

- Acho que em um mês eu tou de volta.

- Um mês?! Mas você acabou de tirar férias... – Batista suspirou, sem forças.

- Olha, eu nem sei como agradecer, seu Jerômo! Deus lhe pague! Ah...! Ia me esquecendo... O senhor pode me adiantar o mês? Pra comprar a passagem...

Ali estava outro exemplo evidente de manipulação. E o Fuxico? Fuxico era o gato cor de fuligem que ele havia salvo de um atropelamento e virara bicho de estimação. Lá estava ele arranhando o sofá novinho, puxando o estofo para fora... Batista levantou-se de um salto, gritou para o animal e abriu a porta para ele sumir no quintal.

- Hum...! – depois coçou a cabeça. – Será que o bichano não fez aquilo só para eu lhe abrir a porta? Manipulação e das boas...!

O telefone tocou, era sua velha mãe. Sim, estava tudo bem com ela, do jeito que podia estar uma pobre velha com o pé na cova, etc, etc. Ela se lamentou ainda um pouco, até chegar ao assunto: Ronalda, a enfermeira.

- Ela é boazinha, mamãe, cuida de você direitinho.

- Cuida nada! Você é que não vê! Noite dessas, eu, na minha cama, morrendo de sede, pedi um copo d’água e a desinfeliz não escutava, assistindo a novela! Você precisa dizer pra essa moça prestar mais atenção, meu filho. Desse jeito, vai acabar me matando!

Batista suspirou e prometeu que falaria com Ronalda, dando-se conta em seguida de que a mãe se expressava tão bem com ele; por que ela não podia falar com a enfermeira ela mesma? Claro que dessa forma não precisava se indispor com a outra; deixava ao filho a parte ingrata da reclamação e as duas continuariam amigas e sorridentes. Jerônimo bateu na testa: mais manipulação... Será que não sobrava ninguém, uma pessoa que gostasse dele simplesmente, que não quisesse nada em troca e o aceitasse como era?

- Nesta questão faço como o filósofo: procuro com uma lanterna e não encontro alguém que não tenha segundas intenções.

Pois aí está o nosso homem, já o vimos, podemos voltar ao ponto do ônibus. Causa pena ver a que nível ele chegou, dormindo em poleiro, cagado pelos pombos! Quando ele compreendeu o que todos pensavam, ainda tentou reagir, disse-me a prima quando estava com a cabeça no secador, cheia de bobbies. Mas qual! Não havia saída, porque se ele reagisse negativamente à manipulação... dizendo, por exemplo, à mãe: “Fale com a enfermeira você mesma!”; ou à filha: “Trabalhe e compre suas próprias coisas”; ou à empregada, ou ao gato, ou a seu advogado, etc., o que pensava deles, o que ganharia? Primeiro, uma careta; depois, a pessoa virava-lhe as costas, magoada e ofendida por ele ter pensado tal coisa; e por fim a pessoa se afastava e o esquecia. Perdido por ser bom, perdido por ser mau...! O coitado endoidou.

Olhe, lá está vindo meu coletivo. Agradeço-lhe imenso pela companhia e pela conversa.  

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 20h00
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AS MÁQUINAS NÃO MENTEM JAMAIS

 

 

 

NÃO EXISTE MAIOR IRRITAÇÃO PARA UM USUÁRIO DO QUE DEPENDER DE UM TÉCNICO QUANDO O COMPUTADOR DÁ ALGUM DEFEITO.

 

A CULPA NÃO É DO POBRE TÉCNICO, QUE DÁ O SEU MELHOR PARA RESOLVER O PROBLEMA E QUE AINDA, EM ALGUNS CASOS, TENTA EXPLICAR AO LEIGO O SEU DIAGNÓSTICO DO PROBLEMA, BEM COMO A CAUSA PROVÁVEL QUE O GEROU.

 

TAMBÉM NÃO É DO POBRE USUÁRIO, DUPLAMENTE IRRITADO POR TER DE INTERROMPER UMA TAREFA IMPORTANTE (O COMPUTADOR SEMPRE PIFA QUANDO A TAREFA É IMPORTANTE) E, POR CIMA, SER TRATADO COMO DÉBIL MENTAL PELO COMPETENTE DO TÉCNICO, QUE PARECE TRIPUDIAR DA SUA DESGRAÇA RESOLVENDO AS COISAS BEM LENTAMENTE.

 

BEM, A CULPA NÃO É DE NENHUM DOS TRÊS, POIS A MÁQUINA PODERÁ DAR O PIOR DEFEITO DO MUNDO, CONHECIDO OU DESCONHECIDO, QUE AINDA ASSIM JAMAIS SERÁ CULPADA DE NADA, MESMO QUE O USUÁRIO TENHA O IMPULSO INCONTRÁVEL DE LHE DAR UM SOCO, UM PONTAPÉ OU ATIRAR O COMPUTADOR PELA JANELA.

 

NÃO, O SISTEMA NUNCA É O CULPADO – DIZ GRAVEMENTE O TÉCNICO – MAS EM NOVENTA E NOVE POR CENTO DOS CASOS A CULPA É DO USUÁRIO.

 

MINHA? POR QUÊ? SE EU FIZ TUDO CERTO E, NO ENTANTO, NÃO FUNCIONOU...

 

NÃO, NÃO – DIZ GRAVEMENTE O TÉCNICO – SE TIVESSE FEITO TUDO CERTO, TERIA FUNCIONADO SEM SOMBRA DE DÚVIDA, PORQUE O SISTEMA... COM CERTEZA O SENHOR FEZ ALGUMA COISA ERRADA PARA DAR O DEFEITO.

 

O USUÁRIO, DESOLADO, ATRASADO EM SEU TRABALHO, JÁ PERDIDO O FIO DA MEADA QUE ELE VINHA DESENROLANDO COM O AUXÍLIO DO COMPUTADOR, NÃO SENTE O MENOR INTERESSE EM SABER POR QUE O RAIO DO PROBLEMA ACONTECEU, NEM COMO FUNCIONA O TAL SISTEMA.

 

JÁ O TÉCNICO, QUE JUSTAMENTE NAQUELA MISSÃO DE SALVAMENTO ESTÁ DESENROLANDO A MEADA DOS SEUS CONHECIMENTOS, ACOMPANHA COM O MÁXIMO INTERESSE AQUELAS MENSAGENS ENIGMÁTICAS QUE A MÁQUINA EMITE, CHEIA DE SINAIZINHOS CABALÍSTICOS QUE PARECEM TER SIDO CRIADOS PARA ATERRORIZAR AINDA MAIS O HEREGE DO USUÁRIO...  

 

IMPOSSÍVEL EVITAR A ELEVAÇÃO DA TEMPERATURA AMBIENTE, ENQUANTO UM MERGULHA NO VIRTUOSO DESEMPENHO DO SEU TRABALHO E O OUTRO, ROENDO AS UNHAS, AO LADO, SEM SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO, REFÉM DOS SINAIS CABALÍSTICOS DO FIM DOS TEMPOS, ESTÁ IMPEDIDO DE CONTINUAR O SEU.

 

ESTE SIMPLES CONFLITO DE PONTOS DE VISTA PODERÁ LEVAR OS DOIS ÀS VIAS DE FATO, COM RISCO DE PERDA DE UM OU DOS DOIS EMPREGOS, CASO NÃO SEJA OBSERVADO ESTE SIMPLES PRECEITO:

 

LEMBRE-SE, USUÁRIO: O TÉCNICO, SE FOR COMPETENTE, DEVE AMAR O SEU TRABALHO E SENTE-SE UM VERDADEIRO SHERLOCK HOLMES SEGUINDO AS PISTAS DO SEU COMPUTADOR DEFEITUOSO; PARA ELE, O QUE QUER QUE VOCÊ VINHA FAZENDO NELE É SECUNDÁRIO;

 

E LEMBRE-SE, TÉCNICO: O USUÁRIO DO COMPUTADOR NÃO TEM A MENOR IDEIA DO QUE ESSA COISA É, NÃO TEM O MENOR INTERESSE EM SABER COMO ELA FUNCIONA E POR QUE FUNCIONA; TUDO O QUE ELE FAZ É USAR A MÁQUINA COMO UMA EXTENSÃO DE SUAS MÃOS, SEUS OLHOS E SUA MENTE; PARA ELE A MÁQUINA JAMAIS DEVERIA FALHAR, COMO SEUS PRÓPRIOS OLHOS E MÃOS NUNCA FALHAM.

 

ORA, PONTOS DE VISTA INCONCILIÁVEIS TÊM APENAS UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL: QUE TÉCNICO E USUÁRIO LARGUEM O SISTEMA POR UM TEMPO EMITINDO SUAS MENSAGENS DO OUTRO MUNDO E VÃO JUNTOS, ABRAÇADOS, TOMAR UMA CERVEJA NA ESQUINA. MAS, POR FAVOR, FALEM DE FUTEBOL E DE CINEMA – NÃO FALEM DE COMPUTADOR!

 

 MarciaK

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Marcia K. às 18h36
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A Vida é Drama

 

Existem dois tipos de pessoas: as que pensam sobre a vida e as que apenas vivem. Estas últimas são felizes ou infelizes naturalmente e nada há a dizer sobre elas. Quanto às que pensam sobre a vida, dividem-se em dois tipos: as que veem a vida como comédia e as que a veem como drama. Na comédia os episódios vão se sucedendo sem muito nexo a não ser o das coincidências desastrosas que, ao juntar numa mesma situação elementos diferentes, expõem suas contradições e sua falta de nexo. Para os que veem a vida como comédia não há muito a compreender nela, apenas a gozar, evitando os dissabores. Mas para os que enxergam o drama na vida, como num romance, num teatro ou num filme - ah, para esses está posta a mesa dos dilemas infinitos, um material para ser estudado até o fim de seus dias.

A vida é drama. Qual é o roteiro? Pode ser mais conciso e objetivo para uns, ou confuso e mal alinhavado para outros, a maioria. Quase todos os nossos dramas, no entanto, padecem da falta de um diretor, aquele elemento interno que “sabe das coisas”. Na falta de um, vários diretores assumem a peça em diferentes fases da nossa vida, e vão passando a bola uns para os outros, de modo que nenhum deles se compromete demasiado. O novo eleito herda os rombos do caixa do precedente, exatamente como na política, e, com as energias da companhia desfalcadas, tem de se virar para cumprir suas próprias metas. Na infância, a direção está com nossos pais ou adultos que os substituíram; nossa vida segue o roteiro que eles nos impõem. Mas este deverá ceder o posto, assim que atingirmos a puberdade, ao novo diretor chamado sexo. Daí em diante é ele quem comanda nossas vidas. Mas só até a companhia mudar de rumo e ele cair em desgraça, passando a ser um mero assessor do novo diretor. E assim, cada drama individual vai tendo seus próprios diretores.

Considerando a história da nossa vida como um filme, não convém nos embrenharmos nos sentidos filosóficos da “escolha do diretor” de nossos dramas; que cada um faça as escolhas que quiser: um pode ter tido a religião por diretor, outro alguma emoção dominante, como a inveja ou a vingança; outro, ainda, um desejo inextinguível de realizar algo, e assim por diante. Lembremo-nos apenas que o diretor esteve lá o tempo todo e que fez o possível para levar nosso drama a bom termo. Ele teve de lidar com um roteiro recebido não se sabe de quem – uma garatuja que ele mal conseguia ler; com os atores – personagens protagonistas, secundários e figurantes do nosso drama; com a locação dos espaços onde as cenas da nossa vida tinham de acontecer e que nem sempre eram adequadas; etc, etc.

A despeito da falta de uma direção competente, o drama da nossa vida se desenrola. Nós nascemos e... vamos que vamos! Não há tempo para planejar muito. Naturalmente nos vemos como herói ou heroína da nossa história. Tudo o que nos acontece é elemento essencial da trama; o que acontece aos outros é apenas detalhe figurativo. Com o tempo, o acúmulo desses detalhes vai se constituindo como nosso meio ambiente, o qual não é menos importante que a trama, visto que nenhum homem é uma ilha e tudo o que acontece aos outros o afeta. Daí a importância de se conhecer a época e o tipo de sociedade em que se desenrola a nossa história.

Resta falar um pouco sobre o caráter da trama. Todo bom roteiro é, em última análise, a epopeia em torno de um conflito essencial, mesmo que este seja tão banal quanto, por exemplo, o desejo de ser rico e poderoso para dominar o mundo. Determinado o conflito, todos os personagens da nossa história, tanto os principais como os secundários adquirem um movimento mais ou menos automático que os leva em direção à condensação máxima dos elementos do conflito. Esse movimento alcança uma velocidade cada vez maior à medida que tudo se aproxima de um e se aglutina nesse nó; desfeito o nó de alguma forma, segue depois como movimento mais lento. É importante que o diretor conheça muito bem, portanto, esses elementos iniciais do conflito e as características dos personagens que estão em jogo. Infelizmente em nossa biografia real quase nunca conhecemos nossas motivações íntimas, nem os contornos do conflito que surge sempre que o mundo contraria um desejo nosso, muito menos as características de nossos próprios personagens internos que, às vezes, atuam de maneiras antagônicas entre si, e dos personagens externos, as pessoas com quem nos relacionamos.

Mais não falemos. Apenas que a situação configurada como nó do enredo tem duas possibilidades, seja na vida ou seja no drama: a primeira se dá quando uma situação reúne elementos diversos em um caldo chamado crise – estes elementos, cozinhados lentamente em condições ideais, podem então gerar uma nova substância, a qual participará na geração gradual de novas necessidades que irão, por sua vez, desembocar numa crise futura, e assim sucessivamente, numa série que poderia chamar-se o nosso “desenvolvimento pessoal”. Estas são as crises ideais no drama da vida.

Mas nem sempre as coisas se dão assim. A segunda possibilidade da situação é aquela em que os elementos da mistura, ao serem expostos ao fogo sofrem uma explosão. A ruptura é total. Aqui o diretor vai precisar de um tempo enorme para reorganizar toda a trama - ao explodir o caldo, os elementos foram disparados para longe, nada mais está no seu lugar original. Esses elementos que participaram da história daquela vida vão ficar vagando durante eras como poeira cósmica – a psicanálise diria que como trauma no inconsciente -, até conseguirem se agregar novamente e formar um corpo que tenha significado dentro do filme.

O pior é que os filmes ruins estão cheios desses “elementos fantasmas” que, não sendo conhecidos do público e nem sequer do diretor, ficam ocultos durante as cenas influenciando o desempenho dos atores. Estes não sabem, depois, por que tudo deu errado. Em sua maior parte, nossos dramas estão cheios desses fantasmas. Um grande crítico de cinema chegou a afirmar, em sua obra “Abaixo a Obscuridade na Tela”(*), que nenhum filme, leia-se nenhuma vida, poderá chegar a um termo satisfatório enquanto persistirem esses elementos insurrectos de antigos conflitos da essência.     

 

(*) livro fictício e um tanto maluco como este artigo.

 

 

 

 

 


 MarciaK



Escrito por Marcia K. às 20h32
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ROSAS DE MÁRMORE

 

 

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Rosas de Mármore


Sonhos róseos, sonhos áureos

Floresceram em minha vida

Mansamente, sem alarde

Mas desabrocharam tarde.

 

Já não havia mais sol

Nem amor, nem mocidade.

Nasceram frios os meus sonhos,

Pequenas rosas de mármore.



Escrito por Marcia K. às 11h38
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O GRANDE IRMÃO


 

O GRANDE IRMÃO

Num minuto você sabe tudo, no outro não sabe nada. Hoje está profissional de carreira, cheio de planos e sucesso. Amanhã está na aposentadoria e seus filhos lhe dizem o que fazer. A realidade ainda se traduz nos seus pensamentos, você está velho mas não está morto, acompanha as notícias... Mas, até quando? Um belo dia os neurônios do seu cérebro deixarão de funcionar e...pronto, você virou um bebezinho que não se lembra de nada e precisam dar comida na boca.

Ingrata esta dependência do cérebro! Ingrata esta dependência do corpo material. Mas isso não é tudo. Preste atenção ao modo de vida atual e verá que estamos sofrendo uma mutação. Sim, o ser humano não é o mesmo do tempo de nossos pais e avós, nosso cérebro não é o mesmo. Agora, além de administrar nossos próprios pensamentos e memórias, e aguentar nossas confusões e incapacidades, ainda temos que lidar com o outro cérebro, o grande cérebro coletivo.

Ai daquele que ainda não percebeu isso, que não recorre ao google para saber onde fica tal lugar, como se traduz tal palavra, quais são os sintomas de tal doença, como preparar essa comida, onde assistir a tal filme e etc. etc. etc... Ai daquele que ainda não usa o celular para movimentar a conta do banco e pagar suas contas, para ser guiado no trânsito pela melhor rota, para conversar com os parentes distantes ou mesmo os amigos próximos, mostrando que ainda está vivo – não se esqueçam de mim! Vejam que foto linda estou mandando, vejam que sou uma pessoa interessante. Ai daquele...!

A internet e a mídia estão fazendo para nós o que o nosso cérebro pessoal era obrigado a fazer. Contam para você imediatamente os fatos que estão se dando no país ao qual você nunca terá de ir para conhecer. Interpretam esses fatos, levando em conta muitos outros dados que você nunca será obrigado a ler. Fazem você sofrer pelos eventos que estão afetando pessoas do outro lado do mundo, não lhe dando tempo nem espaço para sofrer completamente pelos eventos do seu próprio bairro e sua rua. Não lhe deixam espaço para você conhecer quem você é.

Essa matéria sempre foi a mais ingrata para o cérebro: saber quem eu sou. Mas agora ficou praticamente impossível. Porque agora eu sou o meu perfil, ou os meus perfis nas diversas mídias sociais – tem aquele perfil da mídia mais profissional, o dos amigos, o da família, aquele para os seus alunos, para os seus eleitores, etc.

Outro dia li um artigo de uma escritora que faz sucesso com publicações eletrônicas. Ela ensinava que para que o público se interesse por seus livros, não pode descuidar do seu perfil na mídia como um todo – precisa manter seus blogs atualizados, com assuntos do momento e informações importantes e originais; precisa ser uma fonte de informação para seus seguidores, para que eles não a deixem de ler. Penso que, com tal preocupação, pouco tempo lhe irá sobrar para concentrar-se em seus livros, buscar conteúdo para eles um pouco mais profundo, abaixo da superfície massificada das conversas. Ou você conversa e conversa e conversa ou... você busca no silêncio algum crescimento pessoal, que depois eventualmente poderá transmitir.

Nesse estado de coisas, nosso pobre cérebro fica realmente num grande impasse. Se não se conectar, ficará isolado, desatualizado, sem ferramentas para interagir no mundo de hoje. Vai experimentar um sentimento de rejeição e de estranheza, sentir-se um marginal, um desadaptado. Por outro lado, se se mantiver conectado, experimentará uma pressão constante de continuar conectado, de acessar novos dados, de participar de mais grupos, de conhecer as novidades, de se tornar hábil nas novas práticas exigidas... Vai experimentar, claro, uma frustração por não conseguir fazer nada disso por muito tempo... Vai sentir-se um molusco num mar de tubarões. E o pior de tudo, vai perder o pouco sentido de “eu” que possuía, no meio dos seus muitos perfis sociais...

Ah, esse Grande Irmão que nos vigia a todos, nos incita a fazer o que ele quer que façamos, a comprar, a ir, a conhecer e a acreditar...! Eu fico cansada dessa conexão exigente e pegajosa... Digo para mim mesma que ninguém manda em mim, mas calo-me e obedeço... Ele conduz os caminhos do meu pensar, do meu sentir, do meu querer. Como todo mundo, sou uma escrava do cérebro coletivo.

Então eu digo: basta! Não quero mais ser escrava, de hoje em diante serei livre para pensar, agir e querer! O telefone celular será usado apenas para fazer e atender chamadas – que raramente faço, pois dá trabalho escutar a pessoa “ao vivo”, é mais fácil interagir com mensagens plastificadas. O computador será usado somente como máquina de escrever e arquivo de textos, embora, é claro, não sei para que vou escrever se não vou publicar. Não tenho mais perfis, quem não me conhece não pode mais ver para crer. Agora tenho todo o tempo do mundo para tentar me conhecer a mim mesma, lembrando Sócrates. E para buscar no silêncio o verdadeiro sentido da Vida...!

Sim, é isso o que farei. Apenas darei uma olhadinha, antes, nos vídeos do YouTube para ver o que os gurus me dizem sobre isso. E uma vista de olhos pelas notícias, para não virar as costas para o que acontece no mundo e, assim, incorrer em pecado de egoísmo. E dar uma verificada no e-mail para o caso de não deixar sem resposta alguém que possa ter me mandado uma mensagem importante. Darei um boa-noite no grupo de família do Whatsaap para não ficarem preocupados com meu silêncio. Mas nada mais farei, a não ser aquela transferência bancária e... Enfim... quando terei o meu silêncio? Será que na morte também é necessário se cadastrar no Além pela internet antecipadamente?

F I M

 

 




Escrito por Marcia K. às 14h06
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OS GRANDES TEMAS: DE ROMEU E JULIETA À XOXOTA?

 

Para onde iria um escritor que quisesse conhecer seu público? A uma feira literária? Em um evento promovido e patrocinado por muitos selos editoriais ele poderia encontrar todo tipo de público leitor, desde os aficionados e puxa-sacos de celebridades até os simples curiosos passeadores com a família.

Pois a FLIP de Paraty é exatamente essa festa, essa mistura de quermesse do interior com os encontros cult das noites de Vila Madalena. Você encontra de tudo um pouco, espalhado pela arquitetura colonial que, a bem da verdade, de regional não tem mais nada; até as pedras irregulares das ruas são alugadas para quem quiser que seus fregueses passem. No centro cultural assiste a um documentário sobre Foucault; vê uma exposição de cirandeiros da região e outra de fotomontagens com o chamativo título de “Xoxota”. Ao lado, quase dá uma trombada numa estátua de Shakespeare feita de papel-machê, em posição de declamar versos. É porque um arauto vestido a caráter está distribuindo senhas para a palestra “O Mundo é um Palco”, a respeito do famoso escritor inglês, com a participação da – para alguns mais famosa ainda - Fernanda Montenegro.

 Os frequentadores que perambulam à caça das palestras são um espetáculo à parte para quem gosta de ver gente. A maioria são jovens, alguns alardeando irreverência no modo de vestir; outros apenas fora de moda, que é uma marca de quem tem personalidade. Turistas com máquinas fotográficas. Passantes mais velhos, geralmente de preto, e estes você poderia desconfiar que não são só público, mas “alguém” da profissão que está ali por algum motivo mais nobre do que comprar lembrancinhas. De fato, quando uma pessoa mais velha entra num café próximo a algum desses eventos literários, as pessoas olham para ver se não é alguém conhecido. Vai que seja, e não querem perder o autógrafo e a selfie.

No meio das dezenas de lojinhas, restaurantes e cafés, onde houver uma pequena aglomeração na porta provavelmente haverá uma placa anunciando palestra ou lançamento de livro. Dá para espiar da rua, e como são todos grátis, se tiver paciência você pode ficar ouvindo debruçado na janela. Na praça da matriz está a festa para a criançada. Rodas de livros infantis, muitos espalhados no chão para leitura – pouquíssimos leitores mirins – e no quiosque rola uma conversa informal com uma escritora infantojuvenil. Também há muitas barracas de ONGs e Movimentos, pró ecologia, pró caiçaras, etc. Escritores sem patrocínio oferecem seus próprios livros na calçada, com autógrafo incluído no preço. Caricaturistas retratam os passantes em troca de uma simples gorjeta. E as editoras diversas que muito oportunamente montam suas estantes dentro de cafés, com placas oferecendo promoções duvidosas, pois os preços são salgadíssimos. E, claro, há os pintores do casario colonial que no meio da rua mostram seu talento para que, no final, algum turista fique com a obra. E os hippies vendendo bijuterias; os índios vendendo bichos em madeira e coisinhas de palha, contas, conchas, penas; um carrinho de mão que passa vendendo doces caseiros tentadores...

Sim, sim, meu querido Shakespeare, o mundo é um palco e neste momento Paraty é o palco do mundo! Por aqui desfilam culturas diferentes e diferentes interesses também... O que toda essa gente espera da literatura, afinal?  

O escritor, vendo os desenhos e mostras, os títulos dos livros lançados, ouvindo frases de palestrantes aqui e ali, suponho que concluiria que os principais temas que habitam o imaginário popular e suas preocupações nos dias de hoje são: a solidão; o individualismo; o narcisismo; a xoxota e a sexualidade.

Ora, ora! – diria, preocupado em conhecer o público para quem gostaria de escrever -  Interessante...! São estes os temas literários do nosso tempo? Quem procura um livro hoje em dia, uma peça de teatro, um filme, já não se interessa mais pelos grandes temas clássicos – a morte, o destino, a finalidade da existência, o amor e o ódio, o amor, o amor...?

Shakespeare coçaria a cabeça, desanimado. Pensaria em largar definitivamente a profissão e abrir uma gráfica. Enfim, como “escrever or not escrever” para ele era questão de vida ou morte, daria de ombros e continuaria escrevendo sobre o único tema que sempre existiu, mesmo sob risco de não ter mais nenhum leitor. Claro, ele continuaria escrevendo sobre o amor.

 

Marciak

 



Escrito por Marcia K. às 12h29
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AS COISAS COMO ELAS SÃO

(Crônica engraçadinha)


 

Dois amigos encontram-se no shopping.

- Você por aqui! Não esperava uma coisa dessas!

- Estou comprando umas coisinhas.

- Eu estava indo comer alguma coisa, vamos?

O outro concordou.

- Mas esse restaurante não é lá essas coisas, é bem simples.

- Você sabe que eu não ligo pra essas coisas. Aqui só tem coisa boa.

Sentam-se e olham o cardápio.

- Escolheu alguma coisa?

- Sei lá... Tem tanta coisa! O que você escolher, peça a mesma coisa pra mim.

Fazem o pedido.

- Há quanto tempo, hem? Mas conte alguma coisa!

- Eu? Não tenho grande coisa para contar.

- Já comigo as coisas não andam nada bem...

- Aconteceu alguma coisa?

- E não foi uma coisinha à toa: perdi meu emprego, estou na rua.

- Que coisa!

- É... Alguma coisa já estava me dizendo... Pra falar a verdade, acho que eu não dava mesmo para a coisa.

- Agora você não está dizendo coisa com coisa. Você sempre foi bom com essa coisa dos números.

- Ser bom com números é uma coisa; trabalhar no caixa de uma grande loja é outra coisa.

O garçom traz a comida.

- Não me diga que a coisa pegou?

- Uma coisa estranha... Fazia o fechamento do caixa, faltava dinheiro.

- E você não dava pela coisa?

- Essas coisas acontecem... É normal uma coisinha ou outra. Mas começou a faltar toda semana.

- Toda semana? Aí tem coisa!

- Comecei a desconfiar de um sujeito que ficava tomando conta quando eu saía pra fazer outra coisa...

- E você não chegou e esclareceu as coisas?

- Tentei... Mas na hora H, a coisa deu errado, o sujeito pediu as contas. Sumiu.

- Assim de repente? Mas o chefe te falou alguma coisa?

- Nem queira saber as coisas que aquele imbecil me falou! A coisa ficou feia pro meu lado! Veio um auditor, examinou os balanços, não me deixou explicar coisa nenhuma...

- Nossa! Vou te dizer uma coisa: alguém armou pra você.

-  A coisa toda explodiu. Bum! Agora estou aqui...

- Mas te pagaram todos os direitos, aquelas coisas?

- Recebi alguma coisinha...

- E agora? Está vendo alguma coisa?

- Estou aceitando qualquer coisa! Menos trabalho braçal, que já não tenho idade pra essas coisas.

- Procurou alguma coisa no jornal?

- Não tenho feito outra coisa!

- Fale a verdade: está precisando de alguma coisa? Sem ser dinheiro, que não tenho, nem emprego... pode pedir qualquer coisa.

O garçom traz a conta. O que não estava desempregado paga.

- Bom, vou indo. Ainda tenho umas coisas pra fazer.

- Desculpe alguma coisa... Quando puder eu lhe pago, viu?

- Não precisa se desculpar, eu entendo como são essas coisas.

Silêncio constrangido.

- Se souber de alguma coisa eu te aviso.

- Obrigado, amigo. Encontrar você foi a melhor coisa.

 

F I M

 

 

NÃO CONFUNDA AS COISAS. CADA COISA SIGNIFICA UMA COISA. E O PIOR É QUE O POVO SE ENTENDE! ELE SABE QUANDO É UMA COISA OU OUTRA. SE NÃO FOR UM FALANTE DE PORTUGUÊS, AÍ A COISA FICA DIFÍCIL... MAS É ASSIM QUE A COISA TODA FUNCIONA!

 

Márcia K.

 



Escrito por Marcia K. às 17h09
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